applepowder

3: Disforia

Jan 14th, 2019
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  1. Às vezes, Zeni não queria ser éli mesme.
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  3. Zeni havia tido um ótimo domingo. Éli acordou cedo, fez seus exercícios, voltou para casa e tomou banho. Almoçou com Alexandre, seu amigo gênero-fluido. Es dues foram para um parque passar um tempo até ser a hora de irem para um encontro não-binário. O encontro foi muito bem, o pessoal foi para um bar próximo depois, e Zeni só voltou para casa perto da hora de dormir.
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  5. Mas hoje era segunda.
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  7. Zeni acordou cedo, como era de costume, e geralmente não precisava lidar com sua família naquele horário. Tomou café da manhã, arrumou suas coisas, e foi para a faculdade. Até aí, tudo bem.
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  9. Na parada de ônibus, já haviam olhares estranhos. Mesmo com a multidão de uma parada de corredor de ônibus em horário de pico, o estilo de Zeni chamava a atenção: uma camiseta preta bastante larga e uma bermuda com estampa de camuflagem. Zeni só queria se sentir confortável, mas isso aparentemente deixava as outras pessoas desconfortáveis.
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  11. Uma voz fina e sussurrada, mas não o suficiente para Zeni não ouvir, dizia, em tom de deboche: "nossa, o que é isso".
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  13. Outra voz parecida, mas um pouco mais séria, respondeu: "acho que ela é uma lésbica".
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  15. Se houveram risadas depois disso ou não, Zeni não ouviu, pois já estava entrando no ônibus.
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  17. Não aconteceu nada de mais no ônibus ou no caminho para a sala de aula. Ainda assim, Zeni havia chegado relativamente cedo, e isso dá tempo de algumas coisas acontecerem.
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  19. Zeni contou do acontecido para Alexandre, pelo celular. Alex mostrou desconforto pelo acontecido, e afirmou o quanto isso não é aceitável sob nenhuma circunstância. Mas tentou incentivar Zeni, não pela primeira vez, a tomar testosterona para que seus problemas acabassem.
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  21. Zeni não acreditava que seus problemas iriam acabar. Sua família nem acreditava que Zeni fosse realmente não-binárie, e que não estivesse só "passando por uma fase rebelde". Zeni não achava que sua família respeitaria a decisão de tomar testosterona. Zeni não achava que ter uma barba que não faz questão de ter e acne ajudaria muito com seus seios gigantes, e também não tinha dinheiro para pagar uma cirurgia desse tipo. (Nem sabia se teria como pagar os próprios hormônios.)
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  23. A conversa acabou, e Zeni só estava pior. Não estava mais se sentindo mal só por terem tanto ê maldenominade quanto apagado sua orientação, mas também pelo seu corpo ser inadequado. Seus quadris eram grandes demais. Seus seios eram grandes demais. Sua voz e sua cara eram "femininas demais". Zeni nunca seria viste como éli é.
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  25. A aula começou, e a professora resolveu dar um trabalho em grupo. Zeni não conhecia ninguém naquela turma, já que a maioria das pessoas ali eram de outros cursos. Vendo Zeni sozinhe depois de um tempo, a professora disse para Zeni fazer um grupo com "aquelas outras meninas", apontando para um grupo de três pessoas.
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  27. Zeni engoliu o choro e foi se juntar ao grupo.
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  29. O grupo parou de conversar quando Zeni se juntou. Depois de alguns minutos, uma das pessoas resolveu quebrar o silêncio:
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  31. "Oi! Eu sou a Ana."
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  33. Ana tentou forçar um sorriso, mas parou ao ajeitar seus óculos. Outra pessoa resolveu falar também, ainda que parecesse entediada.
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  35. "Carla." Quando Zeni olhou para Carla, Carla continuou: "e essa é Júlia."
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  37. Júlia parecia não saber o que fazer. Rapidamente passou parte de seu cabelo castanho para trás da orelha, e depois assentiu com a cabeça.
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  39. Zeni suspirou discretamente para criar coragem, e respondeu, com calma: "Meu nome é Zeni. Eu sou não-binárie, não me identifico como homem e nem como mulher. Por isso, gostaria de pedir, com gentileza, que usassem o pronome éli e o final de palavra e para mim."
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  41. Júlia ficou com um leve sorriso, enquanto Carla mostrava estranhamento, e Ana, surpresa.
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  43. Carla balançou a cabeça, e perguntou: "o quê?"
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  45. Zeni ainda estava tentando reunir suas energias, quando Júlia respondeu: "Zeni usa o pronome ele, ao invés de ela. E, quando você for falar com ele ou sobre ele, deve dizer coisas tipo 'ele é outre alune da facu', 'ele nunca chega atrasade', ou 'ele é mi colega'. É isso, né?"
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  47. Zeni estava mais para feliz do que para triste com essa explicação, mas não conseguia não demonstrar desconforto com o uso do pronome errado. Zeni respondeu, um pouco envergonhade: "é, mas... meu pronome é éli, não ele."
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  49. Zeni tirou rapidamente da mochila um button que tinha mandado fazer: uma bandeira trans com "ÉLI", em letras grandes, pretas e finas na frente.
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  51. Júlia se desculpou, colocando suas mãos na frente de sua boca. Ana ainda não tinha reação. Carla parecia um pouco irritada.
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  53. "Mas você sabe que tem sotaque que isso é igual a ele, né?"
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  55. Zeni se recompôs um pouco, sabendo que ao menos tinha alguém ao seu lado, em potencial. "Se for o caso, tudo bem falar as duas palavras do mesmo jeito. Mesmo assim, prefiro éli a ele."
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  57. Carla ainda não parecia satisfeita, mas preferiu focar no trabalho. Zeni tentou perguntar pelos conjuntos do resto do grupo, e conseguiu, de forma meia boca, respostas que poderiam ser traduzidas como "a/ela/a". Fora isso, tudo o que fizeram foi parte do trabalho.
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  59. Ainda assim, não é como sua linguagem fosse completamente aceita. Ana parecia meio desconfortável e sem saber o que fazer quando era corrigida, e Carla ficava irritada até quando Júlia acertava a linguagem certa em frases maiores.
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  61. Ao final da aula, que ocupava toda a manhã, Zeni não estava se sentindo bem. Se despediu do grupo assim que conseguiu, fazendo uma nota mental para agradecer Júlia mais tarde.
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  63. Na verdade, não sabia se faria isso. Além da explicação, Júlia só fez o que era certo: usar a linguagem certa, assim como usaria para pessoas que usam o/ele/o ou a/ela/a. O resto é que não conseguiu (ou quis) nem fazer isso.
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  65. De qualquer forma, Zeni poderia decidir isso depois. No momento, estava esperando na fila do restaurante universitário para almoçar. Não sabia se queria falar sobre isso com Alex, porque falar mais sobre isso só iria deixar Zeni se sentindo mais inadequade.
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  67. Mas éli ainda não deixava de pensar no paradoxo: não contar sobre sua identidade faz com que pessoas presumam e usem as informações erradas, fazendo com que éli se sentisse mal por achassem que tais informações fossem verdade. Mas, ao contar sobre sua identidade, geralmente precisa enfrentar resistência, perguntas e preconceitos, o que lembra Zeni de como sua identidade é estranha e inaceitável.
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  69. Zeni só queria ser tratade da forma certa logo de cara. Como acontece com a maioria das pessoas cis.
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  71. E foi nesse momento que alguém chamou a atenção de Zeni, ê chamando de moça.
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  73. Essa foi a gota d'água.
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  75. Zeni saiu correndo. Não se importava mais com sua fome, ou com o quanto correr assim é estranho. Só queria sair dali.
  76.  
  77. -- Continua? --
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