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- Você sempre me acusou de frieza. Lembra, meu bem?
- E eu deixei. Concordei até.
- Fiz piadas sobre o paredão de gelo ao redor do meu coração, sobre ter um iceberg no peito e ser a própria rainha gelada. E nós dois sabíamos que não era só brincadeira.
- E você continuou me acusando de frieza.
- Mais uma vez eu concordei.
- Falei sobre as muitas camadas de neve que deveriam ser transpostas até alguém conseguir me alcançar. De como seria uma tarefa trabalhosa e difícil de conseguir. De como pouca gente se empenha e ainda menos gente consegue. Você disse que entendia, mas não era verdade. Era?
- E continuou a me acusar de frieza.
- Eu ainda concordava.
- Contei que percebi que esse bloco gelado no meu peito era um belo clichê em forma de proteção. Que era mais fácil assim, pra não deixar me atingirem, mas, principalmente, para não assustar quem pudesse ver logo de cara o coração incandescente por trás do granizo.
- E ainda assim você me acusava de frieza.
- Dessa vez não concordei. Fiquei confusa.
- Me dei conta de que você não percebia que, naquele momento, eu era só calor. Meu coração exposto, ao alcance do seu toque, queimando acolhedor como a própria fogueira de Héstia. Sem um floco de neve sequer para contar história. E graças à você.
- Que conseguiu fazer seu caminho pelo meu paredão de gelo, derretendo cada cantinho dele com a sua atenção, carinho e cuidado. De maneira genial até, por me fazer derreter de dentro para fora, ao alimentar as brasas dos meus sentimentos com os seus próprios.
- E eu nem vi como isso aconteceu, mas fiquei tão grata por acontecer!
- E te contei tudo isso. Palavra por palavra de um sinal de neon entalhado no meu peito aberto, bem na sua frente.
- Mas você não percebeu. Não é, meu bem?
- Continuou me condenando pela suposta frieza, por mais uma, duas e sabe Deus quantas vezes.
- Sabe, talvez aquele calor todo tenha te assustado e você não soube como reagir. Ou simplesmente tenha se acomodado àquela visão antiga de quem eu era e nem olhava mais pra ver se algo tinha mudado.
- Mas como é que você não viu?!
- E então você mesmo destruiu todo o seu próprio trabalho árduo.
- Já não tinha mais calor vindo de você. Não havia mais combustível para as minhas chamas. E eu tentei, meu bem. Tentei fazer o que você tinha feito antes. Tentei manter meu coração aceso e transmitir isso à você. Tentei fornecer o substrato necessário para manter à nós dois. Tentei mesmo. Mas nesse ponto eu nunca fui tão forte como você e não pude carregar nós dois. Me perdoa, mas eu falhei.
- E então o gelo achou seu caminho de volta, se emaranhando pelas brechas que conhecia tão bem, cercando aquilo que tinha deixado exposto e indefeso, mas que precisava ser guardado e protegido novamente, até mesmo de você.
- E foi só aí que você percebeu.
- Acho que foi uma mudança um tanto desagradável, não é? Aquela nevasca engolindo o ambiente quentinho e seguro, onde você buscou abrigo sem nem perceber.
- E foi aí que você sentiu falta.
- Depois de perder, você percebeu como era bom. Vasculhou suas memórias, finalmente vendo o que tinha ignorado durante todo aquele tempo em que te mantive tão confortavelmente aquecido.
- E foi aí que você pediu por aquilo de volta. Implorou até.
- Você, que sempre me acusou de frieza, fez meu peito incandescer. Mas, assim que conseguiu, deixou que ele voltasse às cinzas frias. Porque acho que é disso que você gosta, não é? É isso o que você quer. E quem despreza as chamas não merece se aproveitar da calidez e do fulgor que elas oferecem.
- Espero que esteja com seu casaco, porque a sua frente fria finalmente chegou e eu garanto que ela não é passageira.
- Agora tá frio o suficiente, meu bem?
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