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- Eu posso garantir que dizer "mas neolinguagem é difícil pra mim" é redundante.
- E falo isso até para pessoas que gostam de um conjunto que envolve neolinguagem (seja e/ele/e, -/ily/y, af/ada/a ou qualquer outra coisa), mas que não sabem se vão conseguir usar pra si mesmas.
- Muitas pessoas que demoram pra descobrir e/ou aceitar que não são do gênero que lhes foi designado demoram para aceitar seu novo nome e sua nova linguagem, por mais que pareçam certes, por mais que tenham tido cuidado em achar as melhores opções.
- Para pessoas trans binárias, muitas vezes são apresentadas as soluções "menos complicadas": a/ela/a se você é mulher trans, o/ele/o se você é homem trans. Nome? Só escolher entre listas enormes de nomes que vão ser tanto considerados normais quanto considerados normais para seus gêneros. Ana, Gabriela e Marisol são "nomes de mulher", enquanto Márcio, João e Rafael são "nomes de homem".
- Nem todas as pessoas binárias, trans ou não, possuem ou usam nomes ou linguagens que a sociedade diz que seriam mais adequadas para seus gêneros. Mas, em geral, são pessoas que ativamente querem lutar contra esse sistema.
- Para pessoas não-binárias, essas soluções "menos complicadas" também são apresentadas, mas temos menos vantagens ao aceitá-las. Tanto as linguagens já previstas pela língua quanto a maior parte dos nomes que a cultura dominante reconhece como "normais" (geralmente nomes europeus, embora exista um ou outro com outras origens) vão fazer com que pessoas questionem o quanto somos "trans de verdade", e/ou o quanto somos "realmente não-bináries".
- Muitas pessoas NB gostam de usar a/ela/a e/ou o/ele/o, ou por não ligarem, ou por saberem que há uma garantia maior das pessoas respeitarem essas linguagens, ou por realmente se identificarem com elas. E não há problema nenhum nisso, obviamente.
- Mas muitas pessoas NB preferem não ter só isso como opção. Querem algo mais específico que combine com suas identidades de gênero, e/ou algo que sintam que é neutro. Há pessoas não-binárias que só aceitam conjuntos que contém neolinguagem, e há aquelas que preferem conjuntos que contém neolinguagem mas que também aceitam o/ele/o e/ou a/ela/a.
- Como foi falado antes, é normal ter uma estranheza inicial relacionada a escolher nome/conjunto novos. Só que a estranheza ainda é maior quando as palavras que você escolhe para si não são "normais", e nem previstas pela língua formal.
- Além disso, é comum que não exista ninguém em seus círculos próximos que use a mesma linguagem que você, ou que use neolinguagem em geral.
- Por isso, pode ser muito complicado afastar o sentimento de estranheza de você mesme. Você pode escrever coisas em terceira pessoa, divulgar sua linguagem nova em espaços aonde ela é vista como aceitável... e ainda se maldenominar de vez em quando. Ou não saber como escrever certa palavra com a linguagem que você usa. Ou achar que certas palavras que usam sua linguagem estão estranhas.
- Em certos casos, pode ser que realmente o conjunto que você escolheu não seja ideal para você. Talvez seja a questão de trocar para outro conjunto que também usa neolinguagem. Talvez você deva pedir sugestões de conjuntos que outras pessoas que usam neolinguagem achariam legais de você usar. Talvez você deva procurar em listas.
- Ou, talvez usar um conjunto que envolva neolinguagem realmente não seja para você. O que não lhe dá o direito de parar de usar neolinguagem para outras pessoas quando seus conjuntos pedem, obviamente.
- Mas, ainda que você consiga aceitar e naturalizar sua própria linguagem... ainda vai ter gente em volta que não vai usar sua linguagem.
- Muita gente.
- Isso não se limita a pessoas na rua que nem pensam que é possível que a pessoa não use a linguagem binária que "tá na cara".
- Isso não se limita a parentes distantes que acham que ser trans ou não-binárie é "doença mental que precisa de cura" ou "modinha que não deve ser levada a sério".
- Isso não se limita ao grupo trans, "LGBT+" ou "inclusivo" que você achava legal, mas que disse pra você que neolinguagem "faz com que não levem pessoas trans a sério", "divide o movimento" ou "é frescura de gente privilegiada".
- Isso não se limita à sua família próxima para quem você tem medo de dizer sobre sua identidade porque não quer ter que lidar com a rejeição e possível represália.
- Isso pode ser sues colegas que acham que usar a linguagem certa é só uma questão de escolha, e que "não querem te fazer mal, mas não vão falar estranho".
- Isso pode ser suas amizades próximas que "não conseguem se acostumar a usar algo diferente".
- Isso pode ser o grupo que pede para que todo mundo use adesivo/crachá com pronomes (porque pensam que artigo e final de palavra vão ser sempre óbvios), mas que na prática ainda trata todo mundo de acordo com padrões cissexistas de quem "parece" homem (e que portanto merece o/ele/o) ou mulher (e que portanto usa a/ela/a).
- E algumas pessoas podem respeitar sua linguagem; algumas de cara, algumas depois de um tempo.
- Mas a maioria não vai nem te dar o luxo de usar alguma linguagem neutra genérica antes de presumir erroneamente sua linguagem.
- Você não tem que aceitar isso calade, obviamente. Há várias maneiras de lidar com isso, e algumas ao menos convencem pessoas a não te maldenominarem (o que não significa necessariamente que vão usar sua linguagem, mas enfim, ao menos tecnicamente não estão falando nada errado).
- A questão é: além de aceitar neolinguagem para si, você tem que aceitar que ou sua vida vai ser cheia de maldenominações, e/ou cheia de confrontos. Provavelmente des dues.
- Pra mim, vale a pena, ainda que seja o preço para que eu possa ser eu mesme de forma mais completa.
- Mas cada pessoa pode preferir suas próprias escolhas.
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