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- quando criança, me peguei várias vezes encarando minha imagem no espelho e questionando sobre o corpo refletido. não que eu desgostasse algo em mim, crianças normalmente desconhecem o mau hábito de julgar a própria aparência.
- na verdade, eu me perguntava como aquela imensidão de pensamentos desordenados ideias meticulosas histórias incríveis e universos fantásticos podiam estar limitados naquele pequeno reflexo de um corpo moreno.
- não tinha como caber toda essa imensidão.
- "Isso não sou eu"
- lembro de ter pensado várias vezes e repito: não estou focando no sentido estético.
- eu também tinha um tique que me ajudava a confirmar essa tese.
- quando eu me empolgava muito mexia as mãos involuntariamente e, pra mim, aquilo era a melhor forma de demonstrar que aquele pequeno-grande universo que me representava não tinha como caber naquele corpo, ele se esvaía pelas extremidades dos dedos em uma voltagem ilegível, era bom pra mim.
- mas aparentemente era ruim pros outros.
- assim como astrólogos não conseguiram até hoje entender que no universo não há paredes, as pessoas não aceitavam a minha ilimitação e como qualquer coisa que o ser humano trata como fora do comum, me mandavam parar.
- na minha cabeça de seis anos quando me advertiam do movimento das mãos era a mesma coisa que dizer pra eu amarrar todo o pequeno-grande universo no corpo. como definir teto em um céu.
- por muito tempo privei o grande universo dentro do corpo.
- e o corpo adoeceu.
- era como manter um pinheiro em um vaso minúsculo guardar o mar num pote ou cobrir o sol com uma flanela.
- demorei muito tempo pra perceber que há pessoas que abrigam dentro delas apenas um plutão uma ursa menor uma Terra quadrada.
- e demorei o dobro do muito tempo pra perceber que essas mesmas pessoas estão em maioria e por serem tantos finitos, têm o poder de fazer um sol duvidar de sua luz.
- cresci em idade e em pensamento e raramente me pego olhando o espelho e questionando se os meus grandes universos estavam limitados ao corpo que nasci. passei a chamar o corpo de Meu e a cuidá-lo, pois é por ele que meus infinitos se esvaem e destroem seus muros.
- aprendi a juntar os cacos e a poeira desses muros que às vezes a vida tenta erguer, daí construo monumentos em forma de letras de forma que falem sobre pensamentos desordenados ideias meticulosas histórias incríveis e universos fantásticos.
- e assim vou sustentando todos os universos das minhas partículas que vão além das linhas que traçam meu corpo
- de Dentro para o Fora.
- Somos pedaços de Infinitos.
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