Cailie

o infinito é pouco pra nós.

Oct 10th, 2017
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  1. quando criança, me peguei várias vezes encarando minha imagem no espelho e questionando sobre o corpo refletido. não que eu desgostasse algo em mim, crianças normalmente desconhecem o mau hábito de julgar a própria aparência.
  2.  
  3. na verdade, eu me perguntava como aquela imensidão de pensamentos desordenados ideias meticulosas histórias incríveis e universos fantásticos podiam estar limitados naquele pequeno reflexo de um corpo moreno.
  4. não tinha como caber toda essa imensidão.
  5.  
  6. "Isso não sou eu"
  7. lembro de ter pensado várias vezes e repito: não estou focando no sentido estético.
  8.  
  9. eu também tinha um tique que me ajudava a confirmar essa tese.
  10. quando eu me empolgava muito mexia as mãos involuntariamente e, pra mim, aquilo era a melhor forma de demonstrar que aquele pequeno-grande universo que me representava não tinha como caber naquele corpo, ele se esvaía pelas extremidades dos dedos em uma voltagem ilegível, era bom pra mim.
  11.  
  12. mas aparentemente era ruim pros outros.
  13.  
  14. assim como astrólogos não conseguiram até hoje entender que no universo não há paredes, as pessoas não aceitavam a minha ilimitação e como qualquer coisa que o ser humano trata como fora do comum, me mandavam parar.
  15.  
  16. na minha cabeça de seis anos quando me advertiam do movimento das mãos era a mesma coisa que dizer pra eu amarrar todo o pequeno-grande universo no corpo. como definir teto em um céu.
  17.  
  18. por muito tempo privei o grande universo dentro do corpo.
  19.  
  20. e o corpo adoeceu.
  21.  
  22. era como manter um pinheiro em um vaso minúsculo guardar o mar num pote ou cobrir o sol com uma flanela.
  23.  
  24. demorei muito tempo pra perceber que há pessoas que abrigam dentro delas apenas um plutão uma ursa menor uma Terra quadrada.
  25.  
  26. e demorei o dobro do muito tempo pra perceber que essas mesmas pessoas estão em maioria e por serem tantos finitos, têm o poder de fazer um sol duvidar de sua luz.
  27.  
  28. cresci em idade e em pensamento e raramente me pego olhando o espelho e questionando se os meus grandes universos estavam limitados ao corpo que nasci. passei a chamar o corpo de Meu e a cuidá-lo, pois é por ele que meus infinitos se esvaem e destroem seus muros.
  29.  
  30. aprendi a juntar os cacos e a poeira desses muros que às vezes a vida tenta erguer, daí construo monumentos em forma de letras de forma que falem sobre pensamentos desordenados ideias meticulosas histórias incríveis e universos fantásticos.
  31.  
  32. e assim vou sustentando todos os universos das minhas partículas que vão além das linhas que traçam meu corpo
  33. de Dentro para o Fora.
  34.  
  35. Somos pedaços de Infinitos.
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