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Canções Para Viver Mais

pilgerowski Dec 9th, 2016 (edited) 765 Never
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  1. CANÇÕES PARA VIVER MAIS
  2.  
  3. O quarto de Vinícius fica no meio do corredor, à esquerda. É lá que estão o violão, as partituras, a
  4. coleção refinada de CDs: Beatles, Radiohead, R.E.M., Flaming Lips, Tom Waits, Jeff Buckley, Strokes,
  5. Air, Beastie Boys, Billie Holliday, Caetano Veloso, Vitor Ramil, João Gilberto. As fileiras são
  6. desordenadas e alguns discos cobrem os demais, mas nem preciso revirá-los para ver melhor. Já deu
  7. para entender as referências dele. Ao lado da cama de solteiro, coberta por uma colcha do Grêmio,
  8. estão um pôster do vocalista do Radiohead, Thom Yorke, o mais brilhante artista da música pop do
  9. século 21, e outro do grupo escocês de pós-rock Mogwai, autografado. Na cabeceira da cama
  10. repousam, sobre um travesseiro, o terço da primeira comunhão e um CD que estampa na capa a foto
  11. de Vinícius – bonito e concentrado, com headphones e agasalho esportivo vermelho abotoado até se
  12. formar uma gola alta. “Yoñlu” é o que está grafado na capa do disquinho digital. O estúdio caseiro
  13. onde as 23 faixas do CD foram gravadas, entre 2004 e 2006, fica no meio do mesmo corredor, à
  14. direita. Abriga o aparelho de som do garoto, mais discos, uma guitarra, um teclado e o seu
  15. computador, um PC onde os sons foram registrados com um aplicativo básico de áudio, o Cool Edit
  16. Pro, e um microfone.
  17.  
  18. Os dois cômodos mais freqüentados por Vinícius Gageiro Marques, filho único da professora
  19. universitária e psicanalista Ana Maria Gageiro, e segundo do professor universitário Luiz Marques
  20. (Fernanda é do primeiro casamento), permanecem arrumados como se ele fosse chegar a qualquer
  21. momento do tradicional Colégio Rosário, onde cursava o ensino médio, para navegar na internet e
  22. fazer música, seu passatempo predileto. A rotina dele também englobava as visitas ao analista, ao
  23. cinema, às aulas de teclado e guitarra e, sazonalmente, a uma academia de ginástica. “Manter tudo
  24. como era faz parte da elaboração da perda”, explica Luiz Marques, que me recebeu em uma tarde
  25. incandescente do verão sulista, no final de dezembro de 2007, para falar do álbum póstumo de
  26. Yoñlu, assinatura virtual (de significado ignorado) de Vinícius, que abreviou a própria vida na tarde
  27. de 26 de julho de 2006, 36 dias antes de completar 17 anos, ali mesmo, no apartamento do bairro
  28. São Geraldo, zona norte de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.
  29.  
  30. Naquele dia, o garoto permaneceu on-line até lacrar o banheiro, onde morreu por intoxicação de
  31. monóxido de carbono. Seus últimos momentos foram acompanhados por internautas com quem ele
  32. se comunicava em um fórum virtual de suicídio. Alguns inclusive deram conselhos de como agir para
  33. executar o plano preconcebido – às 14h18, Yoñlu relatou que tinha duas grelhas queimando no
  34. banheiro, postou uma foto e perguntou: “Alguém, por favor, pode dizer quando posso entrar no
  35. banheiro e deitar?”; às 14h42, um internauta pergunta: “Como você está se virando? Espero que
  36. você consiga. Talvez você vá voltar tossindo”; às 14h44, Yoñlu retorna ao computador e reclama do
  37. calor: “O que eu devo vestir para tornar isso mais suportável? Pelo amor de Deus, alguém por favor
  38. me ajude”; às 15h11, um internauta alerta que a emissão do monóxido de carbono pode afetar os
  39. vizinhos; algumas horas depois, alguém escreve que o suicídio deve ter sido consumado, pois ele
  40. não entrou mais em contato.
  41.  
  42. Conectada à rede na tarde da morte, em Toronto, a antropóloga canadense Lindsey, que conhecia
  43. virtualmente Yoñlu, alertou agentes policiais de seu país. Eles acionaram a sede gaúcha da Polícia
  44. Federal brasileira. Quando os soldados da Brigada Militar de Porto Alegre chegaram ao apartamento,
  45. era tarde demais. O corpo de Vinícius foi encontrado por seu avô, Fernando Gageiro, que mora no
  46. térreo do mesmo prédio de três andares, e por um policial. “Ele ficou tão abalado com a cena do
  47. ‘guri lindo e que tinha tudo’ que teve de se afastar do trabalho de campo e fazer análise”, conta Ana
  48. Maria Gageiro. “Vinícius era fechado como uma ostra, mas dentro tinha muitas pérolas”, define Luiz
  49. Marques, doutor em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris, secretário estadual
  50. da Cultura do Estado do Rio Grande do Sul entre 1999 e 2002. Estamos na sala de estar que tem
  51. como cenário dezenas de quadros com fotografias tiradas por seu filho, um adolescente poliglota que
  52. se alfabetizou em francês (morou com a família em Paris dos 3 aos 7 anos), falava e escrevia em
  53. inglês fluente sem nunca ter freqüentado cursos específicos (aprendeu assistindo filmes na tevê e no
  54. cinema) e chegou a estudar galês, que se propunha a ensinar pela internet – “Tinha um aluno, um
  55. maluco”, brinca o pai.
  56.  
  57. Seguidor da lomografia, Vinícius se dedicava a retratar o cotidiano de forma imprevisível desde os
  58. 13 anos, usando as cultuadas câmeras russas Lomo, que adquiria pela internet com a ajuda da mãe,
  59. com quem passava horas pesquisando pelo modelo a ser encomendado. “Ele era sério, até demais, e
  60. costumava se aprofundar em tudo antes de tomar qualquer atitude”, lembra Ana Maria Gageiro, que
  61. me recebeu alguns dias depois de eu entrevistar seu marido, na mesma sala de estar onde ainda
  62. permanecia, em um cesto de revistas, uma publicação que estampava a manchete “Deus Existe?”. Foi
  63. só depois de muita leitura, por exemplo, que o intelectualizado Vinícius (lia Kafka aos 12 anos) se
  64. decidiu em adquirir seu gato pêlo curto inglês “importado” do Rio de Janeiro. “Albert o seguia pela
  65. casa o tempo todo”, recorda a mãe, com o gosto doce da lembrança e os olhos que miram o infinito.
  66. O bichano, que permaneceu escondido nas duas visitas que fiz ao seu lar, é tão sensível quanto era
  67. seu dono. “Desde cedo, eu percebia que a antena sensível do Vinícius para o mundo também era a
  68. fragilidade dele”, revela Ana Maria, com conhecimento de causa: é doutora em psicologia pela
  69. Universidade Paris Diderot-Paris 7. Porque “a relação com o outro era um desafio quase
  70. intransponível”, ele passou a fazer análise já aos 8 anos. A mãe era uma das poucas companheiras
  71. da curta adolescências do garoto que, até os 14 anos, preferia sair com o pai para ir ao cinema, uma
  72. grande paixão, e aos jogos do Grêmio.
  73.  
  74. Um levantamento elaborado pelo Ministério da Saúde aponta que o Rio Grande do Sul tem o maior
  75. índice de suicídios do país: 16,6 casos para cada grupo de 100 mil pessoas. Porto Alegre é a quinta
  76. capital brasileira da pesquisa. “Este dado coloca Vinícius numa estatística. O resto não é estatística,
  77. ele era um iluminado, tinha uma sensibilidade acima da média”, afirma Luiz Marques, o homem que
  78. se dedica a difundir a notável capacidade artística precocemente revelada pelo filho que, muito mais
  79. do que os clichês fáceis e oportunistas do garoto-problema-da-internet, remetia ao “one dimensional
  80. man” descrito nos anos 50 pelo sociólogo e filósofo alemão naturalizado norte-americando Herbert
  81. Marcuse: “Um personagem da nova era marcado pelo auto-enclausuramento no domicílio, no
  82. trabalho, no lazer, cercado de parafernálias tecnológicas que servem para realizar o sonho da
  83. filosofia iluminista”.
  84.  
  85. Além de participar de grupos internacionais de fotografia, Vinícius desenhava muito bem (seus
  86. traçoes e colagens remetem a Stanley Donwood, designer do Radiohead) e tinha uma aptidão
  87. musical impressionante. Na teoria, demonstrava conhecimento e senso crítico em análises profundas
  88. sobre a música pop, sempre escritas em inglês e disponibilizadas na internet. Com 13 anos, fez uma
  89. compilação em CD, que enviou para amigos virtuais mundo afora, selecionando os artistas que
  90. julgava mais importantes para a história evolutiva do rock: Beatles (“A banda”), Mutantes (“a mais
  91. inovadora do Brasil”), David Bowie (“antena britânica”), Bob Dylan (“pioneiro”), Clash (“o grupo
  92. punk definitivo”), R.E.M. (“baliza pós-punk que apresenta o guitar pop como alternativa ao rock”),
  93. Smiths (“demarcaram o fim da new wave e o começo do guitar rock”), Jeff Buckley (“o mais
  94. importante letrista americano”), Blur (“junto com o Oasis, o sólido parâmetro do brit pop”), Super
  95. Furry Animals (“primeira banda pós-alternativa”) e Radiohead (“para fechar com chave de ouro o
  96. ciclo iluminado”).
  97.  
  98. Na prática, Vinícius registrou centenas de canções movidas a teclado, guitarra, violão e efeitos no
  99. quarto que transformou em estúdio. O disco póstumo, embora seja apenas um esboço do seu
  100. potencial, revela conexão com o pós-rock, vocação para o experimentalismo eletrônico, noções de
  101. rock industrial e capacidade de criar delicadas melodias melancólicas, algo entre Badly Drawn Boy,
  102. Radiohead, Tortoise e Nick Drake.
  103.  
  104. Os artistas gringos, porém, não transitavam com exclusividade na órbita de influências do garoto
  105. contaminado pela consciência universal propiciada pela internet. Nada colonizado, ele agregava ao
  106. seu som a paixão pela bossa nova, a atenção às rupturas tropicalistas (considerava Gilberto Gil o
  107. grande gênio do movimento) e a ingluência de músicos gaúchos como Vitor Ramil, seu predileto, e
  108. Nico Nicolaiewsky. Foi outro músico local, Arthur de Faria, quem recomendou Yoñlu para Sandro
  109. Bello, do selo goiano Allegro, que lançou o disco. “Fiquei imaginando como, em tão pouco tempo,
  110. ele captou a magia da música popular de forma a desenvolver algo tão bacana”, questiona Bello.
  111. “Adorei a maneira como ele usa os tempos, as melodias e as harmonias, e também as letras que
  112. escrevia”, analisa Arthur de Faria, que também é jornalista.
  113.  
  114. Entre o lirismo poético e um salutar nonsense, as letras, escritas em inglês, ajudam a desvendar
  115. quem era Vinícius. Assuntos como depressão, indaqueação e suicídio estão espalhados entre as
  116. faixas selecionadas para o disco. “Katie Don’t Be Depressed”, uma pérola musical com guitarras
  117. quentes e letra polar, é sombria: “Katie não fique deprimida / é sério, quero dizer, que porra é essa?
  118. / um pensamento se lança pela sua cabeça / e vê você se contorcer e berrar / apesar de uma mão o
  119. segurar / apesar de ser jogado no chão”; “Humiliation”, voz, violão e incapacidade de declarar uma
  120. paixão, é pungente: “Por que isso sempre acaba em humilhação para mim? (…) Eu vou dizer porque
  121. / Eu vou morrer”; a balada triste de palavras cuidadosamente mastigadas “Suicide Song”, escrita um
  122. mês antes da data fatal, é assustadora: “Agora ela se foi como todo mundo que conheci / agora o
  123. meu suicídio está iluminado pelo pôr-do-sol / se quer saber a minha opinião, é bem triste / acho que
  124. não vou estar / presente para ver o seu rosto”.
  125.  
  126. Ana Maria Gageiro, que estudou violão e tem boas noções musicais, sempre foi uma grande
  127. incentivadora da vocação do filho, não por acaso batizado em homenagem a um dos mais
  128. importantes letristas da bossa nova. “Casualmente, o último filme que ele assistiu foi o documentário
  129. sobre o Vinícius de Moraes”, lembra a mãe, que apresentou ao garoto bandas como Queen e passou
  130. a gostar de artistas como R.E.M. e Los Hermanos por causa dele. “De vez em quando, sentávamos
  131. para tocar e cantar, e ele me pedia opinião sobre algumas das músicas que estava compondo.”
  132. Apesar de ter sido uma efetiva interlocutora musical, Ana confessou, antes mesmo de eu ligar o
  133. gravador, que não consegue ouvir o disco de Yoñlu – mais no final da entrevista admitiu que “aquilo
  134. ali pra mim é um inferno, né?”, referindo-se ao quarto do garoto, que o marido preferiu manter
  135. arrumado, como nos velhos tempos de convivência a três.
  136.  
  137. É das brincadeiras cotidianas de Vinícius, o parceiro de programas adolescentes, que ela mais se
  138. ressente. “Sempre tive dificuldade de entrar nessa empolgação do CD”, afirma Ana, referindo-se ao
  139. empenho de Luiz Marques em perpetuar a arte de Yoñlu. “Passei a encarar a morte de uma maneira
  140. completamente diferente e mergulhei no trabalho para tentar seguir adiante. Ou tu engata na vida, e
  141. vive mesmo com uma dor destas, mergulha em alguma coisa [longo silêncio]. Tudo termina em
  142. nada. Aprendi que tem que pegar leve. Porque, olha [suspiro profundo], de uma manhã para uma
  143. tarde, tudo muda. A vida escorre pelo dedo. Pega leve.”
  144.  
  145. “É diferente a maneira como um homem se relaciona com o luto em relação à mulher”, teoriza Luiz
  146. Marques. “Para o pai, acabou a transcendência”, declara, enquanto prepara um revigorante café para
  147. dar seqüência à entrevista, logo depois d ter me levado para conhecer o quarto e o estúdio do filho –
  148. mais tarde, ele me enviou um e-mail confessando que sentiu demais o “peso de revirar os CDs e
  149. mever nos livros de Vinícius”.
  150.  
  151. Mesmo destruído depois da perda, Luiz percebeu que tinha uma possibilidade de satisfazer sua
  152. necessidade masculina da transcendência fazendo algo que, acredita, deixaria seu filho, finalmente,
  153. feliz: dedicou-se a divulgar a obra musical dele. A tarefa foi impulsionada por uma iniciativa do
  154. próprio Vinícius, que se revelou depois de sua morte.
  155.  
  156. Até o fatídico 26 de julho de 2006, Luiz não conhecia nenhuma música, muito menos sabia da rede
  157. de interlocução do filho. Antes de se trancar no banheiro para abandonar a vida, Vinícius seguiu uma
  158. orientação do fórum virtual de suicídio que freqüentava há cerca de dois meses e redigiu uma carta
  159. de despedida – para não incriminar os familiares. Escrita no computador, impressa e colocada junto
  160. do aviso “Cuidado – Monóxido de Carbono” afixado na porta, a carta explicava que aquilo não era
  161. uma contingência ou algo precipitado, pedia que sua vontade fosse respeitada porque a vida estava
  162. insuportável, indicava o endereço de seu blog, agradecia o apoio dos pais e lhes recomendava ouvir
  163. música quando ficassem tristes, exatamente como ele fazia. Embora não tenha sugerido que
  164. ouvissem os sons que ele mesmo compôs, deixou um CD com algumas de suas canções.
  165.  
  166. Ao mesmo tempo e no mesmo lugar onde buscava respostas para o suicídio, o computador de
  167. Vinícius (que estava sendo periciado pela Polícia Federal e pela Delegacia da Criança e do
  168. Adolescente), seu pai descobriu algumas das preciosidades sonoras que ele tinha armazenado – na
  169. grande maioria, canções próprias. Entre as poucas releituras, estão duas faixas que, por
  170. desconhecimento de Luiz Marques, não foram creditadas aos seus autores na primeira leva do CD:
  171. “Ricky”, de John Frusciante, e “Little Kids”, do Kings of Convenience. Muitas faixas vinham
  172. acompanhadas por comentário entusiasmados de internautas do mundo todo. O brasileiro de Gay
  173. Harbour (era como Yoñlu se referia a Porto Alegre), praticamente sem amigos reais, era um artista
  174. virtual definido como genial por ingleses, escoceses, belgas, canadenses, norte-americanos. A
  175. descoberta motivou Luiz Marques a procurar alguns amigos músicos, como Cláudio Levitan, que
  176. apresentou os sons para Arthur de Faria, que procurou Sandro Bello, que lançou Yoñlu.
  177.  
  178. Tecnicamente, o formato final do produto foi obtido com a colaboração do músico e produtor gaúcho
  179. Pedrinho Figueiredo, que trabalhou, entre outros, em discos do renomado gaiteiro Borghettinho.
  180. Pedrinho colaborou na escolha do repertório, além de mixar algumas faixas, restaurar o áudio de
  181. outras e, só quando necessário, remixar algumas poucas canções. “Foi admirável testemunhar que
  182. em um período de pouco mais de dois anos ele tenha evoluído tanto”, analisa Pedrinho. “Ele
  183. começou a gravar com as ferramentas mais básicas de um PC e chegou a músicas de 36 canais, uma
  184. mixagem legal e propostas conceituais de arranjo e de mixagem. Eu não conheci o Vinícius em vida,
  185. mas posso dizer que hoje o conheço como artista.”
  186.  
  187. “Eu ‘conheci’ Vinícius em um fórum de videogames, por volta de 2001”, conta por e-mail o DJ
  188. escocês de breakcore/nintendocore Sabrepulse, de 22 anos e um excelente currículo de
  189. apresentações pelo REino Unido. “Logo começamos a falar no MSN sobre música, videogames, arte e
  190. ficamos bons amigos. Aí ele começou a me enviar arquivos de mp3 com suas gravações. Ele era
  191. muito talentoso. Na verdade, comecei a escrever música por causa dele, que me enviou uma faixa
  192. chamada ‘Deskjet’, gravada com sons de impressoras, e eu remixei usando um teclado e algumas
  193. batidas. Depois ele fez algumas cópias desse single e enviou uma para minha casa. ‘Purple Haze’,
  194. uma de minhas primeiras músicas, tem a voz dele na introdução. Em 2006, dediquei um de meus
  195. discos em sua memória, Chipbreak Wars, que tem um desenho do Vinícius na capa (e uma faixa
  196. chamada “XXX Is Dead”). Ainda penso muito nele.”
  197.  
  198. Sam Miller, a.k.a. FargalEX, 21 anos, estudante de animação digital na Universidade de
  199. Hertfordshire, Inglaterra, conheceu Yoñlu em janeiro de 2004. “Embora nunca o tenha visto
  200. pessoalmente, o considero como um de meus amigos mais próximos”, revelou por e-mail – depois de
  201. relutar em conceder entrevista, porque já foi procurado por muitas pessoas para falar a respeito do
  202. suicídio. Para um dos internautas, com quem mantive contato, e que lhe contou sobre o lançamento
  203. do CD, chegou a se mostrar desgostoso e dizer: “Ele se foi, deixem-no em paz”. FargalEX tem
  204. armazenadas 72 faixas gravadas pelo adolescente gaúcho, “nem todas prontas, algumas
  205. experimentais, mas sempre muito fáceis de serem visualizadas”. Autor da letra nonsense de
  206. “Guurdensky Slipslogruya Q”, lançada com o título de “Goodbye (a Story)”, voz da introdução da
  207. faixa I de Yoñlu, o indie rock “Mecha Donald Duck”, fã de músicas “Not Another King Kong” (um
  208. quebra-cabeça de estilos lançado como “Tiger” no CD) e da bossa “Sketch”, FargalEX, excelente
  209. designer, também conhecia os desenhos de Yoñlu: “Ele me enviou alguns de aniversário. Tinha uma
  210. arte muito estranha e interessante, quase naïf. Além disso, suas críticas e apoio aos meus trabalhos
  211. artísticos sempre foram muito valiosos. Yoñlu foi uma grande inspiração.”
  212.  
  213. As evidências da amizade entre FargalEX e Yoñlu estão em um dos fóruns musicais que
  214. freqüentavam, o rllmukforum. Em 26 de junho de 2006, depois de enviar músicas para serem
  215. apreciadas pelos demais internautas e ser questionado sobre sua idade por alguém surpreso com a
  216. qualidade do trabalho, o brasileiro respondeu que tinha 17 anos. “Espera, o quê? Subitamente você
  217. ficou mais velho? Você não tem 17 anos até setembro”, provocou FargalEX – Vinícius nasceu em 1°
  218. de setembro de 1989.
  219.  
  220. Foi nesse mesmo fórum, pelo qual naveguei municiado pela senha fornecida por Luiz Marques, que o
  221. pai de Yoñlu começou a descobrir sua boa reputação. Dois dias depois do suicídio, FragalEX
  222. disponibilizou 25 faixas do amigo em mp3: suzakuseven agradeceu e afirmou que “Waterfall” é
  223. simplesmente maravilhos; thebigboss escreveu que “Finalmente” é fantástica; Bastion Booger
  224. afirmou que a voz remetia a Thom Yorke das coisas mais novas e perguntou se Yoñlu era seu fã; Mk
  225. afirmou que o garoto deveria ter um álbum póstumo; YaWdiB contou que não conseguia parar de
  226. cantar “Estrela” nos últimos dois dias – ele se referia a “Estrela Estrela”, música de Vitor Ramil dos
  227. versos “como ser assim tão só e nunca sofrer?”, que Yoñlu regravou e fez grande sucesso entre os
  228. fãs. Em 14 de agosto, DiscoStu escreveu que era difícil imaginar que uma pessoa tão jovem e
  229. talentosa pudesse ter posto fim a tudo, e elogiou “Estrela” e “Waterfall”; Bojangle descobriu Yoñlu
  230. listado na plataforma social de música Last.fm, mas, ao constatar que não favia um perfil dele,
  231. propôs que eles mesmo fizessem um, juntos; stan contou que colocou a maravilhosa “Waterfall” em
  232. seu iTunes.
  233.  
  234. Passado quase um ano, em 4 de maio de 2007, Hoop version confessou que rotineiramente acordava
  235. com a segunda parte de “Albatross” em sua cabeça; em 3 de junho, Jim Miles revelou que nunca
  236. tinha ouvido nenhuma música de Yoñlu até então, e elogiou “Waterfall”, especialmente quando as
  237. batidas começam; em 17de junho, toonfool contou que baixara “Waterfall” havia algumas semanas e
  238. a considerava uma grande música – “É uma pena que ele tenha partido”; em 19 de agosto, Jab
  239. afirmou que Yoñlu tinha muito talento e desejou que ele descansasse em paz. A recorrente
  240. “Waterfall” é uma balada instrumental cortante levada por violão e voz, que cresce na segunda parte
  241. quando acrescida de efeitos e batidas eletrônicas sutis. Em fevereiro deste ano, o selo Luaka Bop fez
  242. coro aos internautas e concedeu nova dimensão ao trabalho. Agentes do selo norte-americano, que
  243. descobriram o som do garoto pela internet, licenciaram os direios internacionais do CD lançado pela
  244. Allegro. No exterior, o álbum ganhará nova direção de arte e terá 14 faixas, entre elas a versão de
  245. “Estrela, estrela” e o samba “Olhe por nós”.
  246.  
  247. O guru da psicodelia Timothy Leary declarou que o computador era o novo LSD, referindo-se a
  248. possibilidades tão infinitas quanto a perpetuação da persona virtual, algo semelhante a uma viagem
  249. lisérgica se levado em conta o despreeendimento do tempo/espaço. O corpo de Vinícius foi enterrado
  250. no cemitério ecumênico João XXIII, em Porto Alegre. Yoñlu (ou Yonnerz, seu outro codinome), o guri
  251. de Gay Harbour que habita a rede mundial de computadores continua disponível para a geração
  252. google – é plausível imaginar que fosse bem consciente disso. Ele ainda está cadastrado nas páginas
  253. do site IVOX – Guia de Opiniões, onde, com 12 anos, escreveu que “a última coisa que precisarão
  254. ouvir sobre mim é simples: sou preguiçoso”; listou Radiohead, Björk, Neutral Milk Hotel, Ed
  255. Hardcourt e Kings of Convenience como bandas de interesse; afirmou ser “grande admirador do
  256. trabalho de David Lynch”; fez uma abalizada crítica para o filme Lilo & Stitch: “A campanha
  257. publicitária da Disney para sua nova comédia sci-fi animada está desesperadamente tentando nos
  258. convencer de que o filme é uma exceção à tradicional fórmula da Disney (…) Au contraire, Disney,
  259. au contraire (…), no geral ele se encaixa perfeitamente nela, com seus protagonistas órfãos,
  260. personagens auxiliares cômicos e uma mensagem sobre a importância da família”.
  261.  
  262. No site Rate Your Music, onde pode ser visto de chapéu e cachimbo, Yoñlu conta que estava ouvindo
  263. Los Hermanos, Beatles, John Frusciante, Caetano e Clash e atribui notas altas para quatro discos do
  264. Lambchop, poucos dias antes de morrer. No site da Amazon, é dele uma das resenhas do CD João
  265. Voz e Violão, em inglês impecável e de frases como “a bossa nova é de longe o mais inspirado
  266. gênero musical brasileiro”; “para mim, é disso realmente que música se trata: voz, violão e
  267. silêncio”; Em seu blog, Lone Cannoneer (tirado do ar por um hacker em outubro de 2007, por
  268. decisão de Luiz Marques e em nome da preservação de familiares que apareciam fotos), Yoñlu deixou
  269. mais amostras de sua criatividade, capacidade crítica e um bom humor que, na medida em que
  270. crescia, se afastava do apartamento onde morava com os pais. Suas auto-entrevistas em forma de
  271. notícia são primorosas.
  272.  
  273.     GAY HARBOUR, BRAZIL – O aprendiz de violão de 15 anos Yoñlu anunciou hoje que,
  274.     apesar de praticar cotidianamente, está tocando cada vez pior. O jovem pupilo
  275.     está estudando música há um ano numa escola a duas quadras de sua casa. “Bem,
  276.     eu pratico mais do que uma hora por dia, mas não consigo melhorar”. (…) Em um
  277.     momento da entrevista, Yoñlu pegou seu violão e começou a tocar “Don’t Think
  278.     Twice, It’s Alright”, de Bob Dylan. Apesar de seu modo de cantar ser, de fato,
  279.     bastante fiel ao de Dylan na versão original de Freewheelin'[1963], foi impossível
  280.     não perceber que ele está tocando muito mal.
  281.  
  282.     GAY HARBOUR, BRAZIL – Inspirado na recente decisão de Jason Kottke de parar de
  283.     trabalhar para se dedicar ao blogging, o autor do bem-sucedido blog Lone Cannoneer,
  284.     Yoñlu, está pensando em fazer o mesmo. “Bloguear o tempo todo tem sido um sonho que
  285.     me acompanha há tempos”, confessou o jovem brasileiro. (…) ele também estava negociando
  286.     com o Blogger.com por mais banda, desde que o grande número de acessos que tem recebido
  287.     diariamente começou a causar quedas no servidor nas horas de pico. (…) “Milhares de
  288.     pessoas param diariamente para ler minhas novas resenhas sobre música no Lone Cannoneer,
  289.     dividir suas opiniões ou simplesmente checar as novas animações. Eu não posso tirar isso
  290.     delas.”
  291.  
  292. Conectados à existência virtual, jovens como Marcelo Amorim Menegali, paulista de Piracicaba, 19
  293. anos, se tornaram verdadeiros especialistas na vida de Yoñlu. O estudante de Engenharia de
  294. Computação leu a notícia da morte pela imprensa e, um ano depois, começou a pesquisar a história
  295. virtual do garoto que jamais conheceu. Em um dos diversos sites e blogs pelos quais navegou,
  296. encontrou Hellraiser, um amigo de Yoñlu que se suicidou em 15 de agosto de 2007. “Lendo posts de
  297. um site, cliquei, por curiosidade, no perfil de uma menina que tinha feito um comentário
  298. interessante”, contou Marcelo, por e-mail [no final de todos os bate-papos virtuais que me
  299. descreveu, ele colou os textos]. “No perfil da garota havia um verso da letra de ‘Suicide Song’
  300. [“Back into your arms because I just can’t be… anything outside of them”], do Yoñlu. Assustado
  301. pela coincidência, mandei um e-mail para ela e passamos a conversar no MSN. Ela se chama Coraline,
  302. mora em Paris, era namorada do Hellraiser, cujo nome verdadeiro é Romain, e me contou que ele era
  303. muito amigo do Yoñlu. Coraline conheceu o namorado em um fórum de suporte à depressão, ele havia
  304. dito a ela que iria se suicidar. Provavelmente, Yoñlu e Hellraiser sabiam dos planos de suicídio
  305. um do outro. É possível até que tenham discutido os métodos.”
  306.  
  307. Marcelo também descobriu Flávia Carpes, ex-colega de Vinícius no Colégio Rosário e uma das 37
  308. integrantes da comunidade “Pipoca eh o cara!!!!”, do Orkut. “Flávia Carpes me contou um pouco
  309. sobre ele e disse que estavam na mesma classe, mas que não eram muito próximos”, lembra
  310. Marcelo. “Quando citei as músicas, ela se mostrou surpresa com uma em especial. Depois ela ligou
  311. para uma colega para contar sobre esta música e a meu respeito. Foi assim que eu conheci
  312. (virtualmente) a Luana.”
  313.  
  314. “A coisa que eu mais gosto é de falar do Vinícius”, diz Luana Groch, que encontrei (pessoalmente)
  315. em um sábado pela manhã em um típico ponto-de-encontro porto-alegrense – um café, em pleno
  316. verão – para lembrar do mais tenebroso inverno de sua curta existência. Foi para ela que Vinícius
  317. escreveu “Mecânica Celeste Aplicada”, nome definitivo para a música inicialmente batizada como
  318. “Luana”. Ela mudou de Erechim para Porto Alegre em 2006, com a intenção de cursar o terceiro ano
  319. e se preparar melhor para o vestibular. “Entrei na turma 303 e todo o pessoal foi muito receptivo,
  320. mas logo o Vinícius me chamou a atenção, sempre contando suas piadinhas”, enfatiza a garota que
  321. contrasta o ar melancólico com a disposição para discorrer sobre os bons momentos de um passado
  322. recente. “Na sala de aula, ele era muito extrovertido, de um humor inteligente, e isso me atrai
  323. bastante nas pessoas. Já no primeiro dia de aula, fui falar com ele. Depois, no Orkut, ele veio
  324. perguntar: ‘Por que tu veio falar comigo?’, como se tudo aquilo que ele fazia não recebesse a
  325. atenção que merecia. Mas não era verdade, todo mundo amava ele no colégio! Ele não tinha amigos
  326. assim, de viver junto, ir às festas, viagens, mas todo mundo amava ele”.
  327.  
  328. Em seguida, Luana aprofunda a análise e começa a dar pistas. “Na verdae, ninguém conhecia o
  329. Vinícius, todo mundo conhecia o Pipoca. Era o aluno mais popular da sala de aula e o mais
  330. inteligente também. Ele não estudava, entregava as provas em dez minutos e só tirava 10, vivia
  331. tirando onda, até com os professores. Uma vez, ele resolveu entrar em um concurso de top model
  332. que fizeram no colégio, só para avacalhar!”, diverte-se a colega que sentava longe de Pipoca e não
  333. conversava muito com ele na escola, mas gastava muitos pulsos telefônicos com Vinícius, três vezes
  334. ao dia. “Sabe aquela pessoa extremamente agradável de conversar?”, dispara Luana. “Ele era
  335. sensível, parece que a gente se conhecia há muito tempo”.
  336.  
  337. A afinação da dupla se estendia até ao guarda-roupa: “O Vinícius tinha um casaco igual ao meu, da
  338. Puma, preto, e a gente sempre se vestia igual. Aí, um dia, eu resolvi ir de branco na aula, eu nunca
  339. usava branco! No outro dia, claro que ele foi de branco também, a gente se olhava e ria muito, foi
  340. muito engraçado!”, narra Luana, como se estivesse descrevendo o enredo de uma comédia romântica
  341. que assistiu em um cinema de calçada.
  342.  
  343. Confidente, conselheiro, companheiro, Vinícius mostrava algumas das músicas que estava
  344. compondo para a melhor amiga. “Eu achava o máximo quando ele me pedia opinião. Uma vez, ele
  345. gravou uma música e estava com vergonha de apresentar, aí a gente cantou junto. Todo mundo
  346. gostou, até o professor. E ele ficou trifeliz”, arremata orgulhosa a guria, arrastando seu sotaque
  347. gaúcho. “Depois ele me falou que estava fazendo uma música para mim, ficou um tempão
  348. produzindo”. O grau de amizade e confiança era tamanho que “quando ele estava achando muito
  349. chato ir no analista, me pedia para ligar no meio da consulta, ou mandar mensagens de texto, para
  350. poder inventar uma desculpa e sair”, revela a garota. “Um dia ele me contou que começou a falar
  351. muito de mim e o analista chegou a pensar que eu fosse imaginária, porque meu nome é a soma das
  352. primeiras sílabas dos nomes dos pais dele”.
  353.  
  354. Protagonistas de uma love story adolescente, sem nenhuma pressa ou necessidade de entrar no
  355. mundo adulto e transformar a amizade em namoro (por mais adultos que fossem), Vinícius e Luana
  356. começaram a ir juntos ao cinema e até faziam planos futuros. “Para o verão deste ano, tínhamos
  357. programado uma viagem para a França”, recorda a menina enquanto mordisca os lábios, mexe e
  358. remexe nos cabelos.
  359.  
  360. Subitamente, ela desmonta a atmosfera etérea que exala e baixa o tom de voz. “Com o passar do
  361. tempo, fui vendo que o comportamento dele na sala de aula era fachada, ele não queria ser daquele
  362. jeito. Vinícius dizia que não conseguia passar o que sentia, a não ser quando estava cantando e
  363. escrevendo. Ele falava muito sobre depressão, às vezes tinha que ir embora no meio da aula porque
  364. não agüentava a pressão. No começo, ainda tinha forças, falava que queria se tratar, e eu ajudava,
  365. dizia que ele ia conseguir. Mas, às vezes, ele dizia: ‘Hoje eu quase cometi uma loucura’. O Vinícius
  366. era genial, mas achava que qualquer pessoa era melhor do que ele. Era bonito, mas se achava feio,
  367. sempre falava isso. Se achava insuportável!” – ao estudar a depressão que levou à morte do filho,
  368. Ana Maria Gageiro cita como provável causa a fobia dismórfica: eventualmente, Vinícius tinha a
  369. impressão de que seu corpo iria se dissolver; “Ás vezes ele me dizia que achava que seu corpo
  370. estava aos pedaços”, conta sua mãe.
  371.  
  372. Vinícius nunca deixou Luana ir até a sua casa nem deu explicações plausíveis para essa conduta. Mas
  373. as inúmeras revelações contidas em seu blog e em fóruns da internet explicam por que ele jamais
  374. revelou, nem para a melhor amiga, da existência desses. “Eu achava que ele não me escondia nada,
  375. fiquei muito chateada quando soube do blog e dos fóruns”.
  376.  
  377. Na tarde de 23 de maio de 2006, no rllmukforum, Yoñlu agradeceu os cumprimentos recebidos por
  378. diversas de suas músicas e completou: “Hoje eu voltei para casa pensando em suicídio, mas depois
  379. de ler todas estas palavras gentis resolvi adiar”. à noite, ao comentar a canção “I Know What It’s
  380. Like”, que anexou para ser ouvida, contou que “é [uma música] muito popular entre os colegas,
  381. incluindo minha ex-futura-namorada”; sobre “Untitled”, revelou que é um dos tantos sons que fez
  382. para a garota que ama; de “Suicide Song”, contou que foi “escrita e gravada rapidamente durante
  383. um momento depressivo” e destacou “como é bacana ouvir a voz de um suicida”.
  384.  
  385. Em um relato posterior a uma ida ao cinema com Luana, Yoñlu descreveu seu próprio
  386. comportamento como péssimo, contou que sentia estar se afastando de mais uma pessoa que amava
  387. e pediu que rapidamente alguém dissesse algo gentil sobre suas músicas, antes que decidisse se
  388. matar. No dia 4 de junho, ele postou no fórum a música que fez para a amiga (depois de mostrar
  389. para sua mãe, sem dizer para quem era). Recebeu diversos elogios, como de costume. Dia 8, revelou
  390. que ela gostou da música, e enfatizou que não fez a canção para conquistá-la, mas para amenizar a
  391. má impressão que, segundo seu julgamento, a garota teria dele – àquela altura, ele já tinha
  392. declarado em seu blog que lhe causara muita surpresa o fato de ter se apaixonado por alguém, e
  393. estava entrando numa fase depressiva que culminou com textos nos quais justificava o suicídio, que
  394. podem ser sintetizados nas frases “estou perdendo minha melhor amiga para meus próprios
  395. demônios” e “eu simplesmente não consigo falar com as pessoas, ou melhor, consigo, mas não sem
  396. corromper minha identidade e me tornar alguém que eu odeio”.
  397.  
  398. No final de julho de 2006, Ana Maria Gageiro encontrou a letra de “Suicide Song” sobre a cama de
  399. seu filho. “Me apavorei, e vi que ele não estava bem”, recorda a professora e psicanalista. “Chamei
  400. ele para conversar e ele disse ‘que era só uma música’. Eu disse: ‘Não é só uma música, é uma
  401. música que fala de suicídio. Eu vejo que tu não tá bem’. Mas ele estava sempre muito decidido, as
  402. coisas batiam e voltavam, ele estava se isolando cada vez mais.”
  403.  
  404. No mesmo período, Luana relata que Vinícius “começou a quebrar tudo que a gente tinha, não queria
  405. mais falar comigo, se isolou muito na sala (ia de headphones para as aulas), parou de fazer
  406. piadinhas”. Alertado pelo analista, Mário Corso, de que seu paciente estava falando em se matar,
  407. Luiz Marques abriu a barra de acessos do computador do filho e descobriu que ele freqüentava um
  408. grupo virtual de suicídio – chegou a pegar um diálogo do grupo no qual Yoñlu sugeria para uma
  409. norte-americana com uma espingarda apontada para a cabeça que desistisse e fosse procurar um
  410. analista. “O Luiz improimiu os diálogos e sentamos os três para conversar, aqui mesmo, nesta sala”,
  411. revela Ana Maria. “A gente dizia que agora não era só uma música, havia conversas, mas ele
  412. argumentava que, se aquela era para ser uma solução, teria que ser e pronto. Ele foi muito
  413. categórico naquele dia”. A partir da conversa, os pais não o deixaram só um minuto sequer. “Mas aí
  414. ele começou a simular uma melhora, levva até o violão para a escola. Até que, já nas férias de julho,
  415. ele inventou que faria um churrasco para alguns colegas do colégio que não tinham ido viajar” – com
  416. a desculpa de que nunca recebia amigos em casa e em nome da privacidade, pediu aos pais,
  417. professores em férias, que os deixassem a sós.
  418.  
  419. A reunião de colegas para um churrasco na cobertura, dia 26 de julho de 2006, soava tão salutar
  420. quanto o aniversário de 12 anos de Vinícius, que fez do Kiss, então sua banda predileta, o motivo da
  421. festa – ele e três vizinhos passaram o dia inteiro maquiados com produtos de um kit adquirido pela
  422. internet; o aniversiariante encarnou Paul Stanley. “No dia da morte, ele simulou tudo”, recorda Ana
  423. Maria. “Foi comigo comprar comida no supermercado, me fez arrumar a mesa antes de eu sair, dizia
  424. que tinha dúvida de quantas pessoas iriam. Não vi tristeza, depressão, pavor. Lembro dele me
  425. olhando em êxtase, em paz. Eu tinha falado para ele que seria desesperador pensar em perdê-lo.
  426. Mas, para o Vinícius, estar vivo ou morto era um detalhe. Ele não usou nenhuma droga, não bebeu
  427. nada – dizia que se bebesse apenas acrescentaria mais um problema aos muitos que já tinha. Foi a
  428. convicção que deixou ele tão calmo.”
  429.  
  430. No último post de seu blog, Yoñlu publicou uma foto em que está de costas entreolhando para a
  431. câmera, parecendo assustado, aparentemente numa cela. Um clique no alt-text revela a frase “É
  432. assim que eu quero ser lembrado”. “A foto é de uma festa de São João no Colégio Maria Goretti,
  433. onde ele fez o ensino fundamental”, revela Luiz Marques. “Ele parece estar numa prisão, e não à toa
  434. escreveu uma música chamada ‘Prison’, que não entrou no disco. A sociabilidade que a escola impõe,
  435. para ele, sempre foi um pesadelo” – “A minha música predileta sempre foi ‘Prison’, e, embora eu não
  436. soubesse que Yoñlu era depressivo, acho que dizia muito a respeito de como ele se sentia”, me disse
  437. Sabrepulse, tão longe e tão perto do amigo virtual.
  438.  
  439. “Eu falei com ele naquela manhã, por MSN”, conta Luana, que estava de férias em Erechim, com a
  440. família, na semana em que Vinícius tirou a própria vida. Ela escreveu: “Não falta muito para a gente
  441. se ver. Estou com saudade”. Ele respondeu: “Também estou”.
  442.  
  443. Um ano e meio, dois capuccinos e muitas revelações depois, era eu que estava sentado numa mesa
  444. de café diante da garota que “tem o dom de deslocar assim / a lua de Netuno no ar”, como Yoñlu a
  445. descreveu em “Mecânica Celeste Aplicada”, sua única canção com letra em português, faixa 20 do CD
  446. cujos eventuais lucros serão investidos em um site dedicado à brilhante produção artística do garoto
  447. que produziu muito para quem viveu tão pouco, mas ainda assim fez muito pouco para quem
  448. demonstrou tanto talento. Yoñlu é um disco que deveria ser apenas um cartão-de-visitas, mas se
  449. transformou em testamento, é a celebração de uma vida com vocação para banquete que ficou no
  450. aperitivo, é uma amostra de som e poesia dos beijos que Yoñlu não deu, dos sonhos que não
  451. realizou, das angústias que não superou, de sua paixão pela arte e especialmente pela música, como
  452. deixou registrado na carta derradeira escrita para os pais, afixada na porta do banheiro, em parte
  453. reproduzida no encarte do álbum póstumo: “Eu acredito que a cadência e a harmonia certas no
  454. momento certo podem despertar qualquer sentimento, inclusive o de felicidade nos momentos mais
  455. sombrios”.
  456.  
  457. ( Matéria publicada na revista Rolling Stone n°18 por Marcelo Ferla - Março de 2008. )
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