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- às vezes a gente quer um amor que saiba o nome de todas as cidades importantes do Panamá, mas que se não souber, não tem problema também, porque há amor
- alguém que não coloque a mão na frente dos olhos quando o sol for forte demais
- ou a entrega for comprida demais
- ou os beijos forem extensos demais, capazes de curar mágoas e angústias antigas
- alguém que volte pra casa e avise que está voltando, mas que se não avisar e fizer surpresa, tudo bem tudo bem
- pois o sorriso estalado no meu rosto às sete da tarde será a melhor coisa da semana pra nós dois
- que se preocupe em trazer brócolis da feira, mas que me leve aos mais indelicados festivais de coxinha
- e que se atente, a pessoa que deterá meu amor, para minha agonia mais sutil num dia mais cabal
- vai me olhar, serenizado, e me perguntar: "com qual das mãos posso esmigalhar as suas culpas?"
- não precisa entender de poesia
- mas que entenda as vezes em que precisarei me ausentar
- mudar de quarto
- erguer muros literários
- eu quero um amor que me aponte no mapa todas as possibilidades de conforto. quando, entre um dia e outro, existe a vontade de fugir pra cidade vizinha.
- alguém que arrume minhas malas sem que minha consciência perceba a tempo
- e que me roube
- me roube!
- foge comigo pra algum lugar distante?
- às vezes a gente só quer sair do mundo, entrar em outro, pular em outras águas, experimentar do amor entrando na pele de maneira distinta, com gosto de adrenalina lá no fundo do organismo, lá no fundo do organismo
- um amor que me coloque sobre os ombros e corra comigo como numa fotografia antiga e velha, quando o mar desponta no peito uma vontade de infinitude
- um amor, um alguém-amor, para ser esse mar profundo, que não me traga medo de me afogar
- a última vez que me afoguei, quase morri.
- mas não quero morrer, porque amor não mata ninguém.
- um amor que não se importe de dividir o mesmo espaço-tempo, o mesmo livro de literatura mexicana, o mesmo fone de ouvido, a mesma vontade de ter um jardim em casa, o mesmo anseio de escrever nas paredes da sala, a mesma vontade louca e inóspita de correr pelas ruas da cidade e só parar quando cair, quando o joelho ralar e o corpo pedir arrego
- um amor-alguém para ser louco comigo, em mim, tão dentro de mim que mundo nenhum poderia furtar
- alguém para debater os limites da fronteira entre a pele e o peito
- entre aquilo que grita e queima
- e que fica em nós e não volta
- alguém que não me ache louco ou insano por gostar demais dessa coisa vertiginosa de escorrer pelas linhas do universo e estar fadado a tudo que me tira daqui, arrebata e me leva noutra dimensão
- às vezes encontro deus mas não conto a ninguém
- [agora vocês sabem]
- algum amor-alguém que me faça ter vontade de amar novamente
- e amar sem temer
- amar com a força de uma Flor desbravando o asfalto
- amar com a ânsia de quem precisa muito se salvar
- porque o amor salva o mundo
- porque o amor é a gravidade segurando o menino-mundo na corda bamba da vida explodindo
- explodindo
- explodindo.......
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