Kustapassaessa

Citações Jessé Souza

Oct 12th, 2019
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  1. Jessé Souza - A Ralé Brasileira Quem é e Como Vive
  2. É esse “esquecimento” do social — ou seja, do processo de socialização familiar — que permite dizer que o que importa é o “mérito” indi- vidual. Como todas as precondições sociais, emocionais, morais e econômicas que permitem criar o indivíduo produtivo e competi- tivo em todas as esferas da vida simplesmente não são percebidas, o “fracasso” dos indivíduos das classes não privilegiadas pode ser percebido como “culpa” individual.
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  5. Fragmenta-se o conhecimento, isola-se o que não pode ser isolado, e depois produ- zem-se estatísticas sobre coisas que nunca se compreenderam. O círculo do embuste retórico se fecha: o especialista faz gráficos e estatísticas sobre o que não compreendeu, e o leitor ou ouvinte leigo faz de conta que entende o simulacro de conhecimento que lhe é apresentado.
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  8. Na melhor das hipóteses, poderemos deixar de nos avaliar como “economia”, pelo tamanho do nosso PIB, e começarmos a nos avaliar como “sociedade”, pela forma como nos tratamos uns aos outros.
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  11. Existe, em países como o Brasil, uma crença “fetichista” no progresso econômico, que faz esperar da expansão do mercado a resolução de todos os nossos problemas sociais. O fato de o Brasil ter sido o país de maior crescimento econômico do globo entre 1930 e 1980 (período no qual deixou de ser uma das mais pobres sociedades do globo para chegar a ser a oitava economia global), sem que as taxas de desigualdade, marginalização e subcidadania jamais fossem alteradas radicalmente, deveria ser um indicativo mais do que evidente do engano dessa pressuposição.
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  14. Que esse tenha sido um “plano político” conscientemente arquitetado e levado à prática, por parte da elite paulista vencida por Vargas em 1930, no sentido de construir uma teoria e uma elite intelectual e política antiestatal e liberalizante, como discurso legitimador para a reconquista do poder político perdido, já é assunto bem estudado e pacífico.
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  17. Quando essa realidade adulterada e simplificada é ainda repetida por pessoas com a “autoridade da ciência”, que deveriam precisamente criticar os automatismos e os aspectos não refletidos do senso comum, então chegamos a compreender a situação de extraordinária pobreza do debate público e político brasileiro.
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  20. A teoria da modernização foi um influente movimento teórico surgido por motivos claramente políticos em 1946, no imediato pós-guerra. Harry Truman, então presidente dos Estados Unidos, percebeu que a “reorganização do mundo livre” exigia uma “nova visão política” que pudesse legitimar as pretensões americanas à hegemonia global no contexto competitivo da Guerra Fria.3 Signi- ficativas quantidades de dinheiro começaram a jorrar dos cofres públicos americanos para financiar pesquisas as mais diversas sobre os obstáculos de desenvolvimento para as nações mais atra- sadas do globo. O que se buscava aqui era uma opção à sedução do caminho comunista de desenvolvimento. Foi nesse contexto despido de ambiguidades e contradições que os Estados Unidos foram pensados como os campeões sem defeito da modernidade, e os “arcaicos”, desde o sul da Itália até a América Latina, como a lata de lixo da História. Que isso tenha servido como uma luva para legitimar a influência política e econômica dos americanos, que apareciam como os “semideuses modernizadores”, em toda a periferia do capitalismo, parece-me evidente.
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  23. Como vimos, se as “realidades” a serem analisadas e quantificadas pelos dados são elas mesmas realidades seletivamente “construídas” pelo pesquisador, então as próprias perguntas de uma entrevista, assim como a “interpretação” posterior das mesmas, são elas mesmas dependentes da capacidade do pesquisador em considerar o maior número de aspectos possíveis que constroem uma realidade. Os dados irão refletir, em cada caso, apenas a pobreza, como na pesquisa de Almeida, ou a riqueza da análise.
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  26. Um sujeito de direito não é criado pela lei, mas socialmente construído.
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  29. Ao contrário do que pensam os defensores do aumento das penas e da diminuição da maioridade penal, o medo ou mesmo o terror pela sanção não são os mecanismos psicológicos que levam à incorporação da disciplina.
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  32. O argumento, “populista” de fio a pavio, que está na base desse discurso é: “quem pode saber melhor sobre a vida de alguém do que a própria pessoa?” O absurdo dessa tese pode ser percebido por qualquer um se a compararmos com outros exemplos da vida cotidiana. Certamente não passa pela cabeça de ninguém pretender saber mais do que um médico quando se está doente. Apesar de a doença “acontecer no corpo do doente”, este quase sempre não tem a menor ideia de como isso acontece e se desenvolve.
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  35. No entanto, no âmbito das ciências sociais, tal ingenuidade corre solta. Os próprios cientistas sociais são os primeiros a defen- derem esse tipo de hipótese, como vimos tanto com Alberto Almeida quanto com Luis Eduardo Soares.
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  38. E ainda imagina que, apenas porque esses trabalhos são feitos em Chicago, isso seja um “argumento” a seu favor, ou pior, uma “carteirada” que dispense justificação. Esse tipo de raciocínio colonizado sequer atenta para o fato de que pesquisadores críticos, que refletem sobre os pressupostos de seu próprio trabalho, são uma pequena minoria em qualquer lugar do mundo.
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  41. Já cientistas como Luis Eduardo Soares não conseguem ir adiante, não porque simplesmente confundem pesquisa de marketing com pesquisa sociológica, como Alberto Almeida, mas porque lhes falta um quadro teórico mais amplo que lhes possa permitir a contextualização dos testemunhos de seus informantes.
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  44. Como as próprias necessidades e desejos pessoais só são percebidos pelas pessoas por sua expressão monetária, ocorre um extraordinário empobrecimento de tudo aquilo que não é passível de ser exprimido monetariamente, como senti-mentos, afetos, valores, convicções morais etc. A centralidade do dinheiro e do prestígio associado a sua posse tende a tornar mudo, imperceptível, incapaz de “articulação”, ou seja, incapaz até de ser “pensado” e “imaginado” qualquer interesse ou valor humano não monetário ou não econômico. Ao mesmo tempo, é apenas o advento do dinheiro e da economia monetária, como o próprio Simmel não deixou de explicitar, o elemento que permite a “possibilidade”, ainda que não a certeza, de qualquer
  45. forma de desenvolvimento individual autônomo e independente de formas heterônomas de dominação pessoal.
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  48. Jessé Souza - A Tolice da Inteligência Brasileira - Ou Como o País se Deixa Manipular Pela Elite
  49. A “disciplinarização” passa a ser percebida como de “interesse” do disciplinado, na medida em que as possibilidades abertas pela disciplinarização do corpo para seu uso econômico e útil implicam em compensações materiais muito palpáveis. E o que a cegueira da dimensão moral em Foucault não o permite perceber é que também as compensações “imateriais” que se referem ao ganho em “reconhecimento social” e prestígio, associadas a esta mesma utilidade social, são decisivas para sua opacidade como instrumento de dominação e asujeitamento. A percepção individual dos lucros ligados a essa forma de dominação impessoal é o que explica a “docilidade” não apenas econômica – autotransformação e flexibilização constante para fins econômicos –, mas também de uma “docilidade” política naturalizada e pensada como sendo exercida em proveito próprio.
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  52. Não há corrupção sistemática no Estado sem que seja provocada por interesses de mercado. Aqui não tem “santinho” nem “virtuoso”. Então, por que “escolher” mercado e Estado como os termos de nosso “conto de fadas”?
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  55. A proteção às classes dominadas tem sido historicamente tarefa do Estado, por exemplo, garantindo educação e saúde mesmo para os mais pobres. É vontade dos “endinheirados”, no entanto, que todas as dimensões da vida social fiquem à mercê do interesse de lucro.
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  58. Assim, podem-se concentrar fatia desproporcional do PIB brasileiro em ganhos de capital, cuja parte do leão vai para o bolso dos endinheirados que perfazem menos de 1% da população, ficando uma pequena parte para a enorme maioria da população que vive de salários.
  59. Nas democracias europeias, por exemplo, essa relação é inversa.
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  62. Na verdade, o mercado capitalista, aqui e em qualquer lugar, sempre foi uma forma de “corrupção organizada”, começando com o controle dos mais ricos acerca da própria definição de crime: criminoso passa a ser o funcionário do Estado ou o batedor de carteiras pobre enquanto o especulador de Wall Street – a matriz da avenida Paulista – que frauda balanços de empresas e países e arruína o acionista minoritário, embolsa, hoje mais que antes da crise, bônus milionários. Enquanto os primeiros vão para a cadeia, o segundo, que às vezes arrasa a economia de países inteiros, ganha foto na capa da revista The Economist como financista do ano. Quem é que ganha, na verdade, com a corrupção tornada legal do mercado e celebrada como mérito? É isso que o cidadão feito de tolo não vê. No Brasil, inclusive, a tolice é ainda muito pior do que em qualquer outro lugar. Nenhuma sociedade complexa é tão absurdamente desigual como a nossa. Essa deveria ser a real vergonha nacional.
  63. Mas tem muito mais. Essa transferência grotesca de riqueza entre nós é realizada por serviços e mercadorias superfaturados – cobrados pelo mercado e não pelo Estado – com as taxas de juros e de lucros mais altas do mundo, cobradas pelos bancos e pelas indústrias cujos lucros e juros vão para o 1% mais rico. E quem são as classes cujos indivíduos são feitos de tolos, senão as classes médias e trabalhadoras ascendentes que são quem, precisamente, consomem os carros com o triplo da taxa de lucro dos carros europeus; pagam taxas de juros estratosféricas para bancos em qualquer compra a prazo; e serviços de celular dos mais caros do mundo ainda que seja incomparavelmente pior? Quem é feito de tolo aqui são partes significativas das classes médias e trabalhadoras ascendentes, muitas delas que defendem o Estado mínimo e o mercado máximo e que pagam preços máximos por produtos e serviços mínimos e de baixa qualidade a capitalistas que possuem monopólios para produzir mercadorias e serviços de segunda categoria. Essa é a corrupção invisível para o cidadão feito de tolo e que nenhum jornal ou TV comprada por ou de propriedade do 1% mais rico mostra.
  64. É essa “corrupção organizada” do mercado que “aparece” como milagre do mérito de capitalistas que na verdade herdaram o privilégio e nunca correram nenhum risco. E é essa visão das coisas que é difundida na esfera pública.
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