Kustapassaessa

Citações Frantz Fanon

Nov 6th, 2019
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  1. Frantz Fanon - Os Condenados da Terra
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  3. Prefácio Jean Paul Sartre
  4. Compreendam isto uma vez: se a violência começa, se a exploração e a opressão não tivessem existido nunca sobre a terra, talvez a apregoada «não-violência» pudesse pôr termo à querela. Mas se o regime inteiro e até as suas ideias sobre a
  5. não-violência estão condicionados por uma opressão milenária, a sua passividadenão serve senão para os alienar do lado dos opressores.
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  8. E, em primeiro lugar, o individualismo. O intelectual colonizado aprendeupelos seus mestres que o indivíduo deve afirmar-se. A burguesia colonialista introduziu a golpes de pilão, no espírito do colonizado, a ideia de uma sociedade de indivíduos, onde cada qual se encerra na sua subjectividade, onde a riqueza é a do pensamento. Mas o colonizado que tenha a oportunidade de se esconder no povo durante a luta de libertação, vai descobrir a falsidade dessa teoria.
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  11. Por isso, um estudo do mundo colonial deve tentar compreender, forçosamente, o fenómeno da dança e do transe. O relaxamento do colonizado é precisamente essa orgia muscular no curso da qual a agressividade mais aguda, a violência mais imediata, se canalizam, se transformam, se escamoteiam. O círculo da dança é um círculo permissivo.Protege e autoriza.
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  14. A história das revoluções burguesas e a história das revoluções proletárias demonstraram que as massas camponesas formam, com frequência, o freio da revolução. As massas rurais nos países industrializados são, geralmente, os elementos menos conscientes, menos organizados e também os mais anarquistas. Apresentam todo um conjunto de heroísmos, individualismo, indisciplina, amor ao lucro, aptidão para os grandes ódios e os profundos desânimos, que definem uma conduta objectivamente reaccionária.
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  17. O camponês que defende no seu lugar as suas tradições na sociedade colonizada, representa o elemento disciplinado cuja estrutura social continua a ser comunitária. É verdade que esta vida imóvel, situada em pólos rígidos, pode dar origem momentâneamente a movimentos baseados no fanatismo religioso, a guerras tribais. Mas na sua espontaneidade, as massas rurais continuam sendo disciplinadas, altruístas. O indivíduo retrai-se perante a comunidade. Os camponeses desconfiam do homem da cidade. Vestido como um europeu, falando a sua língua, trabalhando com ele, vivendo por vezes no mesmo bairro, é considerado pelos camponeses como um desertor que abandonou tudo o que formava o património nacional. Os habitantes da cidade são «traidores, vendidos», que parecem dar-se bem com o ocupante e tratam de triunfar dentro do sistema colonial. Por isso, ouvimos os camponeses afirmarem frequentemente que a gente da cidade precisa de moral. Encontramo-nos em presença da clássica oposição entre o campo e a cidade.
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  20. Os partidos políticos não conseguem implantar a sua organização no campo. Em vez de utilizar as estruturas existentes para lhes dar um conteúdo nacionalista ou progressista, tratam de transtornar a realidade tradicional dentro do quadro do sistema colonial. Acreditam na possibilidade de imprimir um impulso à nação, quando reflectem sobre as pesadas malhas do sistema colonial. Não vão ao encontro das massas. Não colocam os seus conhecimentos teóricos ao serviço do povo, mas tentam enquadrar as massas segundo um esquema a priori.Da capital enviam às aldeias, como paraquedistas, dirigentes desconhecidos ou muito jovens que, investidos pela autoridade central, tratam de manejar o lugar ou a aldeia como uma célula de empresa. Os chefes tradicionais são ignorados, por vezes molestados. A história da nação futura esmaga, com singular desenvoltura, as pequenas histórias locais, quer dizer, a única actualidade nacional da aldeia, quando havia de inserir harmoniosamente a história da aldeia, a história dos conflitos adicionais dos clãs e das tribos na acção decisiva para a qual se chama o povo. Os velhos, rodeados e respeitados nas sociedades tradicionais e, geralmente, revestidos de uma autoridade moral indiscutível, são publicamente ridicularizados. Os serviços do ocupante não deixam de utilizar esses rancores e estão ao corrente das mais pequenas decisões adoptadas por essa caricatura de autoridade. A repressão policial, bem dirigida, porque se baseia em informações precisas, abate-se. Os dirigentes paraquedistas e os membros importantes da nova assembleia são eliminados. Os fracassos sofridos confirmam «a análise teórica» dos partidos nacionalistas. A experiência desastrosa do propósito de enquadramento das massas rurais fomenta a sua desconfiança e cristaliza a sua agressividade contra essa parte do povo.
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  23. As constatações que temos tido oportunidade de fazer ao nível dos partidos políticos encontram-se, mutatis mutandis, ao nível dos sindicatos. Ao princípio, as formações sindicais nos territórios coloniais são quase sempre ramificações locais dos sindicatos metropolitanos e as palavras de ordem respondem como eco às da metrópole.
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  26. Uma agitação tendente a melhorar as condições de vida dos operários e dos estivadores não seria apenas impopular, como correria o risco de provocar a hostilidade das massas deserdadas do campo. Os sindicatos,aos quais se impede todo o sindicalismo, acabam por patear. Este mal-estar traduz a necessidade objectiva de um programa social que interesse, por fim, a totalidade da nação. Os sindicatos descobrem depressa que o interior do país deve ser igualmente instruído e organizado. Mas como nunca se preocuparam por estabelecer meios de comunicação entre eles e as massas camponesas, e dado que precisamente essas massas constituem as únicas forças espontâneamente revolucionárias do país, os sindicatos comprovarão a sua ineficácia e descobrirão o carácter anacrónico do seu programa.
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  29. Descobrem que o êxito da luta exige a claridade dos objectivos, a precisão da metodologia e sobretudo o conhecimento pelas massas da dinâmica temporal dos seus esforços. É possível suportar-se três dias ou mesmo três meses utilizando a dose de ressentimento contida nas massas, mas não se triunfa numa guerra nacional, não se decompõe a terrível máquina do inimigo, não se transformam os homens se se esquece de elevar a consciência do combatente. Nem a coragem encarniçada, nem a beleza dos «slogans» é suficiente.
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  32. Mas se se fala numa linguagem clara, se se não está obcecado pela vontade perversa de confundir as cartas, de se desembaraçar do povo, então se perceberá que as massas compreendem tudo, captam todas as astúcias. Recorrer a uma linguagem técnica significa que se quer considerar as massas como profanas. Essa linguagem dissimula mal o desejo dos conferencistas de enganar o povo, de o deixar de fora. A empresa de obscurantismo da linguagem é uma máscara por detrás da qual se perfila uma mais ampla empresa de espoliação.
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  35. À medida que o povo compreende melhor, faz-se mais vigilante, mais consciente de que tudo depende dele e de que a sua salvação reside na sua coesão, no conhecimento dos seus interesses e na identificação dos seus inimigos. O povo compreende que a riqueza não é o fruto do trabalho, mas o resultado de um roubo organizado e protegido. Os ricos deixam de ser homens respeitáveis, tornam-se bestas carnívoras, chacais e corvos que chafurdam no sangue do povo.
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  38. A preguiça do colonizado é a sabotagem consciente à máquina colonial; é, no plano biológico, um sistema de auto-protecção notável e, em todo o caso, trata-se de um atraso seguro infligido à vontade do ocupante na totalidade do país. A resistência das florestas e dos pântanos à penetração estrangeira, é aliada natural do colonizado. Haveria que compreendê-lo e deixar de argumentar e de afirmar que o negro é um grande trabalhador e o bicot um arroteador excepcional. No regime colonial, a verdade dobicot, a verdade do negro, é não mover sequer o dedo mindinho, não ajudar o opressor a aproveitar-se melhor da sua presa. O dever do colonizado, que todavia não amadureceu a sua consciência política nem decidiu recusar a opressão, é fazer com que lhe arranquem literalmente o menor gesto. É uma manifestação muito concreta da não cooperação, em todo o caso de uma cooperação mínima.
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