izukogaen

reciclar a arte que não te mata; fortalece

May 21st, 2026 (edited)
182
0
Never
Not a member of Pastebin yet? Sign Up, it unlocks many cool features!
HTML 6.08 KB | Writing | 0 0
  1. reciclar a arte que não te mata; fortalece
  2. - originalmente um texto sobre LOOΠΔ: Cinema Theory
  3.  
  4. <b>Ⅰ.</b>
  5.  
  6. Iniciar sob uma negativa é raramente a melhor maneira de introduzir argumentos em favor de uma ideia. Contudo, consequente ao compromisso com a honestidade do texto é a fronteira, muito bem vinda, entre os propósitos deste e qualquer pretensão de compreender 'fenômenos', o sociologismo; analisar o 'sucesso', a captura; falar da 'febre', o diagnóstico. Deixo de fora outros desentendimentos possíveis.
  7.  
  8. Na prática, é mais importante estabelecer minha recusa em tratar kpop como besteira. Enquanto isso, permanecerá claro aqui, sem reservas, a vinculação do gênero com a lógica de produção dominante — dentro e fora da cena Idol. Quanto mais explícitos aparentam os vícios presentes na vitrine da indústria cultural, tão mais confortavelmente reterritorializamos termos e significações de aplicação publicitária aos fluxos ...e isso equivale a 'tratar como besteira', separar o vulgar do refinado, reificar culto e inculto, entre outros. Qualquer uma dentre as abordagens elencadas no primeiro parágrafo supõe o mesmo. Separam-se as irrupções, no interior dessa indústria, de suas potencialidades a partir da mesma naturalidade com a qual traçamos uma relação linear de extração, uso e descarte. O que, por sua vez, também supõe a impossibilidade de apropriação total de uma obra à qual nos vinculamos afetivamente. Quero pensar sobre a arte como uma área da vida sem contornos bem definidos.
  9.  
  10. É preciso tornar isto cristalino: pretendo, em primeiro lugar, desconfiar da legitimidade de uma descredibilização, assumida ou não, do kpop em nome da contraposição à indústria da cultura. Em segundo lugar, edificar uma defesa daquela atividade específica do stan que constitui tomar para si e construir a partir de si a verdade da ficcionalização do produto audiovisual. Pretendo abrir para o risco de habilitar objetos culturais dessa ordem, insultando a divisão entre lixo e matéria prima — não das cópias digitais de uma gravação altamente pasteurizada mas de seu efeito e o que se segue dele. Antes uma defesa dos canais Loominosity e Florastel do que da BBC e demais empresas imundas atuantes no ramo, por óbvio ...qualquer outro acréscimo a essa clarificação é desnecessária.
  11.  
  12. <b>Ⅱ.</b>
  13.  
  14. O LOOΠΔ foi, em certo sentido, uma consequência uniforme e calculada da expansão produtiva do circuito de lançamentos da Blockberry. Foram cerca de dois videoclipes dedicados a uma idol diferente apresentada todo mês com pistas e sugestões enigmáticas sobre o próximo lançamento. O desenvolvimento e implementação de como cada elemento (visual ou não) seria associado às idols nessa apresentação mais ambiciosa, no entanto, diz respeito a um processo criativo totalmente <i>sui generis</i>, cujos desdobramentos superam a subjetividade inerte de fã. Ou seja, eles (os desdobramentos) ultrapassam a priorização do consumo no relacionamento entre fãs e os materiais em questão; sobretudo devido ao surgimento de interpretações bárbaras — bárbaras na acepção mais elevada do termo e da figura a qual ele se designa — o bastante para estimular uma produção de sentidos inéditos à gramática dos clipes. Essa usina de significados que é índice da atividade das <i>orbits</i> irrompe também nas mais diversas formas de narrativa, e, raramente, de uma forma que nos emancipa dessas subjetividades amputadas.<blockquote>O desejo é produção instalada sempre em um ponto acima do zero. Não é representado e tão menos uma aquisição.</blockquote>Seguindo na direção dos significados produzidos, são evidentes os clichês de algumas leituras desde o LOOΠΔ 1/3. Supõe-se uma traição, uma conspiração, vez e outra uma metáfora para 'coisas mais sérias' por trás dos temas mastigados. Os temas mastigados, por sua vez, são neste caso levados a pelo menos três direções. Dividir o grupo em sub-unidades e com um calendário de lançamentos intensivo foi determinante na abertura que se teve para tomar de assalto qualquer 'dosagem' das informações oficiais. Os assuntos do texto deixam de ser domesticados latentemente através dessas leituras; não importando se um desequilíbrio da amizade na primeira subunit ou do eros de OEC, poderosíssimo e de todo direito, como também, <i>a fortiori</i>, todo o enredo em yyxy.
  15.  
  16. Quando reivindicada pelo entendimento idiossincrático proveniente da ação de um público, toda repetição de escolha técnica entre clipes abre uma fronteira de práticas 'oficiais' de interpretação. É precisamente a dosagem supracitada expressando um movimento contrário à captura de certos enunciados, contrário também a sua capacidade para se estruturar segundo os próximos acordos ou decisões estratégicas da empresa. Esse movimento por si só é resultado da arte e também medo com o qual uma corporação observa uma dobra, um movimento centrífugo de múltiplas obsessões nos sentidos errados. É precisamente esse movimento que pretendo exaltar. Um respeito suficiente pela sofisticação do trabalho da equipe criativa é sempre possível mas só chega ao provável através desse tipo de leitura, impulsionada pelo prazer que os movimentos e as cores podem provocar. Volto a dizer que é uma recusa do descarte, ou necessidade de reconectar as pontas por onde o desejo escorre e condiciona a uma nova compra, ou apetite pela organização e reorganização de elementos estimulantes jogados.
  17.  
  18. O quão pleonasmático deverá soar a este ponto depende apenas do meu sucesso em ir primeiro pelo sentido negativo da expressão total do texto, invertendo-a somente agora: todo amor envolvido é legitimo.
  19.  
  20. Porque ao redor de todo tabuleiro moral no qual se disputa uma curadoria da cultura mais refinada, há somente cadáveres. Na edificação do estatuto de arte, de pureza e de verdade ...que vida? Buscamos pluralidade de interações, e não há supremacia, defesa ou descredibilização que se sobreponha o espírito de práxis, querendo e podendo. Buscamos, queremos, aproveitamos o que nos fortalece e assim somos lembradas de viver.
Advertisement
Add Comment
Please, Sign In to add comment