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- Sinto Muito;
- eu, de tempos em tempos, venho tendo uma necessidade crescente de colocar tudo pra fora.
- porque as palavras querem sair, mas se prendem á minha garganta
- os sentimentos gritam: “quero ser sentido”
- mas tudo que eu faço é algemá-los e jogá-los no fundo da prisão,
- essa prisão denominada meu coração.
- quanto mais reprimo tudo á minha volta, mais me sinto como alguém com a cabeça presa firmemente á uma corda, prestes a falecer asfixiado.
- e, sabendo disso, procurei transbordar.
- tentei diversos métodos, eu juro.
- tentei chorar, mas minha tristeza é tão intensa que
- mínimas lágrimas se tornaram lagoas
- que se tornaram rios
- que se tornaram mares
- que se tornaram oceanos imensos
- e tudo aquilo despertou em mim uma solidão, porque em meio àquele oceano
- eu não encontrei ninguém. apenas eu, naquela imensurável imensidão de água
- que só eu conseguia ver.
- tentei gritar, mas minha angústia era tão intensa que
- o som que saia de mim não deveria ser tão alto
- mas foi, saiu de mim ardente, duro, rouco,
- como se ele estivesse cansado de estar ali.
- gritei até que minhas cordas vocais não tivessem mais capacidade de
- soltar um som sequer, e doeu, como se jogassem fogo em minha glote.
- e vi que não funcionou comigo, porque gritar me levou a chorar e me encontrei
- perdido em águas profundas novamente.
- tentei bater, mas minha raiva era tão intensa que
- os pequenos socos no travesseiro
- se tornaram socos na perna
- que se tornaram murros possantes nas paredes á minha volta
- soquei tudo em minha volta até que se abrissem fendas nos
- nós de meus dedos, e dessas fendas saíram sangue rúbeo.
- e vi que não funcionou comigo. Porque bater me levou a gritar e me encontrei perdido em águas profundas e sons ensurdecedores.
- tentei fazer amizades, mas me senti incompreendido pelos outros,
- então tentei me isolar, mas me senti tão só, e toda aquela gritaria em minha mente estrondava em minhas têmporas.
- tentei me apaixonar, mas meu coração estava estilhaçado demais,
- tentei orar, mas deus tem outros assuntos piores pra resolver,
- tentei suicídio, mas ainda havia uma faísca de esperança em mim,
- tentei escrever e...
- Não foi tão diferente assim.
- pensei que havia encontrado uma nova salvação, um novo abrigo.
- pensei que a escrita iria me erguer novamente, mas... não.
- pensei que escrever seria minha salvação, mas não conclui ainda se me salvou ou me desmantelou mais ainda.
- escrever foi a mistura viciosa e imperfeita de tudo o que eu mais evitava.
- escrever me fez chorar, gritar, bater nas coisas, me fez voltar ao maldito passado, me fez rir, me trouxe calma, curou pequenas feridas antigas mas abriu feridas novas, bem maiores.
- escrever é uma faca de dois gumes.
- e isso não é necessariamente ruim.
- eu coloquei tudo pra fora na escrita e passei horas escrevendo dez palavras, ou minutos escrevendo duas mil.
- mas, além de tudo, a escrita me ajudou a descobrir coisas sobre mim, principalmente
- eu sinto muito. e essa não é pra ser aquela frase clichê que falam da boca pra fora,
- mas na verdade não sentem nada.
- eu sinto muito, no sentido literal.
- quando me sinto triste, beiro o suicídio, quando me sinto feliz, beiro o mais lindo júbilo, quando amo, faço do amor um abraço e te guardo em meus finos braços, eu sinto demais.
- eu sinto muito, eu explodo, eu não sei estar no médio, no “mais ou menos”, é intensamente mais, eu transbordo e derramo e extravaso, e sinto como se nunca fosse parar.
- eu sinto muito,
- me desculpa,
- sinto muito.
- não é por querer.
- não é por frescura.
- não é por besteira.
- é por necessidade.
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