Cailie

me desculpa.

Oct 4th, 2017
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Never
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  1. Sinto Muito;
  2. eu, de tempos em tempos, venho tendo uma necessidade crescente de colocar tudo pra fora.
  3. porque as palavras querem sair, mas se prendem á minha garganta
  4. os sentimentos gritam: “quero ser sentido”
  5. mas tudo que eu faço é algemá-los e jogá-los no fundo da prisão,
  6. essa prisão denominada meu coração.
  7. quanto mais reprimo tudo á minha volta, mais me sinto como alguém com a cabeça presa firmemente á uma corda, prestes a falecer asfixiado.
  8. e, sabendo disso, procurei transbordar.
  9. tentei diversos métodos, eu juro.
  10. tentei chorar, mas minha tristeza é tão intensa que
  11. mínimas lágrimas se tornaram lagoas
  12. que se tornaram rios
  13. que se tornaram mares
  14. que se tornaram oceanos imensos
  15. e tudo aquilo despertou em mim uma solidão, porque em meio àquele oceano
  16. eu não encontrei ninguém. apenas eu, naquela imensurável imensidão de água
  17. que só eu conseguia ver.
  18. tentei gritar, mas minha angústia era tão intensa que
  19. o som que saia de mim não deveria ser tão alto
  20. mas foi, saiu de mim ardente, duro, rouco,
  21. como se ele estivesse cansado de estar ali.
  22. gritei até que minhas cordas vocais não tivessem mais capacidade de
  23. soltar um som sequer, e doeu, como se jogassem fogo em minha glote.
  24. e vi que não funcionou comigo, porque gritar me levou a chorar e me encontrei
  25. perdido em águas profundas novamente.
  26. tentei bater, mas minha raiva era tão intensa que
  27. os pequenos socos no travesseiro
  28. se tornaram socos na perna
  29. que se tornaram murros possantes nas paredes á minha volta
  30. soquei tudo em minha volta até que se abrissem fendas nos
  31. nós de meus dedos, e dessas fendas saíram sangue rúbeo.
  32. e vi que não funcionou comigo. Porque bater me levou a gritar e me encontrei perdido em águas profundas e sons ensurdecedores.
  33. tentei fazer amizades, mas me senti incompreendido pelos outros,
  34. então tentei me isolar, mas me senti tão só, e toda aquela gritaria em minha mente estrondava em minhas têmporas.
  35. tentei me apaixonar, mas meu coração estava estilhaçado demais,
  36. tentei orar, mas deus tem outros assuntos piores pra resolver,
  37. tentei suicídio, mas ainda havia uma faísca de esperança em mim,
  38. tentei escrever e...
  39. Não foi tão diferente assim.
  40. pensei que havia encontrado uma nova salvação, um novo abrigo.
  41. pensei que a escrita iria me erguer novamente, mas... não.
  42. pensei que escrever seria minha salvação, mas não conclui ainda se me salvou ou me desmantelou mais ainda.
  43. escrever foi a mistura viciosa e imperfeita de tudo o que eu mais evitava.
  44. escrever me fez chorar, gritar, bater nas coisas, me fez voltar ao maldito passado, me fez rir, me trouxe calma, curou pequenas feridas antigas mas abriu feridas novas, bem maiores.
  45. escrever é uma faca de dois gumes.
  46. e isso não é necessariamente ruim.
  47. eu coloquei tudo pra fora na escrita e passei horas escrevendo dez palavras, ou minutos escrevendo duas mil.
  48. mas, além de tudo, a escrita me ajudou a descobrir coisas sobre mim, principalmente
  49. eu sinto muito. e essa não é pra ser aquela frase clichê que falam da boca pra fora,
  50. mas na verdade não sentem nada.
  51. eu sinto muito, no sentido literal.
  52. quando me sinto triste, beiro o suicídio, quando me sinto feliz, beiro o mais lindo júbilo, quando amo, faço do amor um abraço e te guardo em meus finos braços, eu sinto demais.
  53. eu sinto muito, eu explodo, eu não sei estar no médio, no “mais ou menos”, é intensamente mais, eu transbordo e derramo e extravaso, e sinto como se nunca fosse parar.
  54. eu sinto muito,
  55. me desculpa,
  56. sinto muito.
  57. não é por querer.
  58. não é por frescura.
  59. não é por besteira.
  60. é por necessidade.
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