Pastebin launched a little side project called VERYVIRAL.com, check it out ;-) Want more features on Pastebin? Sign Up, it's FREE!
Guest

A educação no Brasil - uma crítica por Richard P. Feynman

By: a guest on Aug 8th, 2012  |  syntax: None  |  size: 10.93 KB  |  views: 1,466  |  expires: Never
download  |  raw  |  embed  |  report abuse  |  print
Text below is selected. Please press Ctrl+C to copy to your clipboard. (⌘+C on Mac)
  1.  
  2. A respeito da educação no Brasil, eu tive uma experiência muito interessante. Eu estava ensinando a um grupo de alunos que, eventualmente, se tornariam professores, pois naquele tempo não haviam muitas oportunidades no Brazil para uma pessoa altamente treinada em ciência. Esses estudantes já haviam feito muitos cursos, e esse seria o seu curso mais avançado em eletricidade e magnetismo – equações de Maxwell e assim por diante.
  3.  
  4.         A universidade era localizada em vários edíficios espalhados pela cidade, e o curso que eu ensinava se dava em uma construção com vista para a baía.
  5.  
  6.         Eu descobri um fenômeno estranho: eu poderia perguntar uma questão e os alunos iriam responder imediatamente. Mas na próxima vez que eu perguntasse a mesma questão – o mesmo assunto, e a mesma questão, até onde vai meu entendimento – eles não conseguiam responder de maneira alguma! Por exemplo, eu estava falando sobre a luz polarizada, e dei a eles algumas faixas de filme fotográfico.
  7.  
  8.         Filmes fotográficos passam apenas a luz cujo vetor elétrico está em uma certa direção, então eu expliquei a eles como você poderia dizer em qual sentido a luz é polarizada se o filme fotográfico estiver escuro ou iluminado.
  9.  
  10.         Primeiramente, nós pegamos duas faixas de filme e os rodamos até que que eles deixassem a maioria da luz passar. Ao fazer isso, nós poderiamos dizer que agora as faixas estavam admitindo a luz polarizada na mesma direção – o que passava por uma das faixas também passava pela outra. Mas então eu perguntei a eles como nós poderíamos saber a direção absoluta da polarização a partir de um úinico pedaço de filme.
  11.  
  12.         Eles não faziam ideia.
  13.  
  14.         Então, eu lhes dei uma pista: “Olhem para a luz refletida pela baía lá fora”.
  15.  
  16.         Ninguém disse nada.
  17.  
  18.         Então eu perguntei: “Vocês já ouviram falarm do Ângulo de Brewster?”
  19.  
  20.         “Sim, senhor! O Ângulo de Brewster é o angulo no qual a luz refletida por um meio com um índice de refração é completamente polarizada.”
  21.  
  22.         “E em qual direção está a luz polarizada quando é refletida?”
  23.  
  24.         “A luz é polariada perpedicularmente ao plano de reflexão, senhor”. Até agora, eu tenho que pensar sobre isso; eles sabiam tudo! Eles até sabiam que a tangente do ângulo equivale ao índice de refração!
  25.  
  26.         Eu disse, “Então?”
  27.  
  28.         Nada ainda. Eles acabaram de me dizer que a luz refletida por um meio com um índice, como a baía lá fora, estava polarizada, eles até me disseram a direção na qual ela estava polarizada.
  29.  
  30.         Eu disse, “Olhem para a baía lá fora, através do filme. Agora, virem o filme”.
  31.  
  32. “Oh, está polarizada!” , eles disseram.
  33.  
  34.         Após muita investigação, eu finalmente entendi que os alunos haviam memorizado tudo, mas eles não sabiam o que nada significava. Quando eles ouviam “a luz que é refletida por um meio com índice”, eles não sabiam que isso significa um material como a água. Eles não sabiam que “a direção da luz” é a direção na qual você vê alguma coisa quando você está olhando diretamente para ela, e assim por diante. Tudo era completamente memorizado, mas nada era traduzido em palavras com real significado. Então, se eu perguntasse “O que é o Ângulo de Brewster?”, eu estou indo no computador com as palavras-chave certas. Mas se eu disser  “Olhem para a água”, nada acontece – eles não tem nada no computador para “Olhem para a água”!
  35.  
  36.         Mais tarde, eu assisti a uma aula de engenharia. A aula,  traduzida para o inglês, soava algo como “Dois corpos... são considerados equivalentes... se torques iguals... produzirem... aceleração igual. Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual.” Todos os estudantes estavam lá ouvindo o professor ditar, e quando o professor repetia, eles checavam pra ter certeza que escreveram tudo certo. Então eles escreveriam a próxima frase, e assim por diante. Eu era o único que sabia que o professor estava falando sobre objetos com o mesmo momento de inércia, e mesmo pra mim era difícil perceber isso.
  37.  
  38.         Eu não consigo ver como eles vão aprender alguma coisa a partir disso. Aqui estava ele falando sobre momento de inércia, mas não houve nenhuma discussão sobre quão difícil é empurar uma porta quando você põe pesos próximo ao trinco, comparado com a dificuldade quando eles são postos próximos à dobradiça –nada!
  39.  
  40.         Depois da leitura, eu conversei com um estudante: “Você anota tudo – o que você faz com isso?”
  41.  
  42.         “Oh, eu estudo elas”, ele disse. “Nós teremos um exame”       
  43.  
  44.         “E como será esse exame?”
  45.  
  46.         “Muito fácil. Eu posso lhe dizer agora uma das questões”. Ele olhou no caderno e disse “ ‘Quando dois corpos são equivalentes?’, e a resposta é, ‘Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual.’”. Então, você vê, eles conseguiam passar nos testes e “aprender” todas essas coisas, e mesmo assim não saber nada, exceto o que eles tinham memorizado.
  47.  
  48.         Depois, eu fui a um exame vestibular para a escola de engenharia. Era um exame oral, e me permitiram que eu ouvisse. Um dos estudantes era incrível: ele respondia a tudo perfeitamente! Os examinadores perguntaram a ele o que era diamagnetismo, e ele respondeu perfeitamente. Então, eles perguntaram, “Quando a luz vem a partir de um ângulo através de uma folha de um material com uma certa espessura, e um certo índice N, o que acontece com a luz?”
  49.  
  50.         “Ela sai paralela a si mesmo, senhor – com um desvio”
  51. “E de quanto é o desvio?”
  52.  
  53. “Eu não sei, senhor, mas posso descobrir”. E então ele descobriu. Ele era muito bom. Mas, a essa altura, eu já tinha minhas desconfianças.
  54.  
  55. Depois do exame, eu fui ver esse jovem brilhante, e expliquei a ele que eu era dos EUA, e que eu queria perguntar  algumas questões a ele, e que isso não iria afetar o resultado do seu exame de qualquer forma. A primeira pergunta que eu fiz foi: “Você pode me dar um exemplo de alguma substância diamagnética?”
  56.  
  57. “Não”.
  58.  
  59. Então eu perguntei, “Se esse livro fosse feito de vidro, e eu estivesse olhando para alguma coisa através dele, o que aconteceria com a imagem se eu inclinasse o vidro?”
  60.  
  61. “Ela seria defletida, senhor, em duas vezes o ângulo na qual você inclinou o livro”.
  62.  
  63. Eu disse “Você não se confundiu com um espelho, confundiu?”
  64.  
  65. “Não, senhor!”
  66.  
  67. Ele tinha acabado de dizer no exame que a luz seria desviada, paralela a si mesmo, e portanto a imagem se moveria para um lado, mas não seria virada em ângulo algum. Ele até disse quanto seria desviado, mas ele não percebeu que um pedaço de vidro é um material com um índice, e que seu cálculo se aplicava à minha questão.
  68.  
  69. (...)
  70.  
  71.         Ao fim do ano acadêmico, os estudantes me pediram para dar uma palestra sobre minhas experiências ao ensinar no Brasil. Na palestra, não haveriam apenas estudantes, mas professores e oficiais do governo, então eu os fiz prometer que eu poderia dizer qualquer coisa que eu quisesse. Eles disseram “Tudo bem, claro. Estamos em um país livre”.
  72.  
  73. (...)
  74.  
  75. O auditório estava cheio. Eu comecei definindo a ciência como uma maneira de entender o comportamento da natureza. Então eu perguntei, “Qual é uma boa razão de se ensinar ciência? Claro, nenhum país pode se considerar civilizado a não ser que... blá, blá, blá”. Eles estavam todos sentados, concordando, porque eu sei que é isso que eles pensam.
  76.  
  77. Então, eu disse, “Isso, é claro, é absurdo, porque qual é o motivo que nos leva a crer que precisamos nos equiparar com outros países? Nós precisamos fazê-lo por uma boa razão, e não apenas porque outros países o fazem”. Então eu falei um pouco da utilidade da ciência, da sua contribuição para a condição humana – eu realmente os excitei um pouco.
  78.  
  79. Então eu disse, “O principal motivo dessa palestra é demonstrar que não há ciência sendo ensinada no Brasil!”
  80.  
  81. Eu podia vê-los franzendo a testa, pensando, “O quê? Não há ciência? Isso é loucura! Nós temos todas essas aulas”.
  82. (...)
  83. Então eu peguei o livro texto de física que eles estavam usando. “Não há nenhum resultado experimental mencionado em nenhum lugar desse livro, exceto em uma parte que há uma bola rolando em um plano inclinado, que diz quão longe irá a bola depois de rolar um segundo, dois, três e assim por diante. Os números contém “erros”, ou seja, se você olhar pra eles, você acha que está olhando para números experimentais, porque eles estão um pouco acima ou um pouco abaixo dos valores teóricos. O livro até fala sobre ter que corrigir os erros experimentais – muito bom. O problema é que, quando você calcula o valor da aceleração constante desses valores, você têm a resposta certa. Mas uma bola rolando um plano inclinado, se for realmente feito, tem uma inércia para fazê-la rodar, e produzirá, se você fizer o experimento, 5/7 da resposta certa, por causa da energia extra que é necessária para fazer a bola rodar. Portanto, esse exemplo de “resultados experimentais” foi obtido a partir de um falso experimento. Ninguém rolou essa bola, senão eles nunca teriam obtido esses resultados!
  84.  
  85. “Eu descobri algo mais”, continuei. “Se eu folhear as páginas aleatoriamente e colocar meu dedo em qualquer parte e ler o que está escrito, posso mostrar a vocês o problema – como não é ciência, mas sim memorizar em todas as circunstâncias. Portanto, eu estou confiante o suficiente para fazer isso agora, na frente dessa audiência: colocarei o meu dedo e irei ler pra vocês”.
  86.  
  87. Então eu o fiz. Parei meu dedo, e comecei a ler: “Triboluminescência. Triboluminescência é a luz emitida quando cristais são esmagados...”
  88.  
  89. Eu disse “E aqui, há alguma ciência? Não! Você só disse uma palavra em termos de outras palavras. Você não disse nada a natureza – quais cristais produzem essa luz ao serem esmagados, porquê eles o fazem. Você viu algum estudante tentar isso em casa? Ele não pode fazê-lo.
  90.  
  91. “Mas, por outro lado, se você escrevecesse ‘Quando você pega um pouco de açúcar e quebra-o com um pilador no escuro, você vê um lampejo fraco. Alguns outros cristais fazem a mesma coisa. Não sabemos o porquê. Esse fenômeno se chama triboluminescência”. Dessa forma, alguém irá pra casa e fará o experimento. E isso é uma experiência da natureza. (...)
  92.  
  93. Finalmente, eu disse que não conseguia enxergar como qualquer um poderia ser educado por esses sistema de auto-afirmação no qual as pessoas passam nas provas, e ensinam as outras a passarem nas provas, mas ninguém entende nada. (...)
  94.  
  95. Depois que eu dei a palestra, o diretor do departamento de ciência se levantou e disse, “O Sr. Feynman nos contou algo muito difícil de escutar, mas parece que ele realmente ama a ciência, e é sincero em sua crítica. Então, acho que devíamos escutá-lo. Eu vim aqui sabendo que nosso sistema educacional era doente, mas eu descobri é que nos temos um câncer!”. (...)