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seila

a guest Jan 2nd, 2013 502 Never
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  1. Subject:
  2.         CardosOnline - 153
  3.    Date:
  4.         Thu, 06 Apr 2000 01:21:14 -0300
  5.    From:
  6.         central@crazy.com
  7.      To:
  8.         cardosonline@zaz.com.br
  9.  
  10.  
  11.  
  12.  
  13.                                                EDITORIAL
  14.  
  15. Um vazio, um aviso de calafrio me percorre antes de teclar com os dedos tensos e a
  16. mente torpe estas linhas frias em um dia morno. Baforadas de pecado, conjunto de
  17. desejos que me aparecem sem aviso e me dizem por favor. Me consumo como ao ar que
  18. respiro e ventilo meus ares com seus ventos de metileno e cócegas na alma. Sim, como
  19. é fraca a nossa alma, como é falha a nossa calma, como as mentiras jogam os direitos
  20. contra o chão sem armas nem gosto doce nos lábios.
  21.  
  22. Papel fino e flores mortas, todas enroladas no turbilhão que escapa na ponta da brasa
  23. e te subtrai consciência, te exonera instinto, te faz perder palavras na cabeça e dá
  24. fome de idéias. A fronte séria do meu pai na sala me lembra de doze anos de idade:
  25. camarão frito em Itapema e chocolate quente em São Francisco. As horas passam e os
  26. pêlos crescem, não sei que dia é hoje e não me importo com a Microsoft. A Caros
  27. Amigos que li na terça ainda retumba na cabeça. Vidas que eu gostaria de ter: eu
  28. quero morar em Bangcok.
  29.  
  30. Cabelos sem pentear há quase um ano, não há um só nó porém. Ainda revolto mas não
  31. crespo, perdido entre os tons de cobre que imitam fogo e sol, cabelos crescem e
  32. perdem a noção de tempo. Dreadlocks, como dizem os rastafaris, apenas um cabelo que
  33. não se corta e não se penteia. Uso dreads e não posso dizer-me rasta. Não creio em
  34. deuses mas temo tudo que não compreendo. Isso todo mundo compreende, a menos
  35. que seja por demais burro ou tenha poucos ideais nocivos. O mundo é letal e quem não
  36. foge acaba escravo. Notícias não mais acompanho, meu time ganhou e eu nem sei. A
  37. casa agora está muda - todos dormem, perecem nas garras e nas endorfinas noturnas.
  38.  
  39. Há tempos não coço as narinas, não vejo mais graça em estourar caneta no bolso da
  40. calça nem responder corrente de internet. Garganta que não dói não deve ter câncer,
  41. música sem alma acaba sempre saindo mais fácil da nossa rotina. Chuvisco e trinta
  42. graus, previsão da quinta-feita especialmente pra mim. Não acredito em calendário mas
  43. leio horóscopo todos os dias. Não tenho uma camiseta escrito eu te amo mas na minha
  44. lê-se sem stress. Ponderei e decretei - jamais me disseram que me amaram. Não fiquei
  45. triste, pelo contrário, senti-me único. Depois entendi e chorei.
  46.  
  47. Quem escuta com os ouvidos sempre perde a melhor parte. As mentes traídas são sempre
  48. as mais violentas, por essa razão as mais criativas. Traição é morte mas traz vida.
  49. Intensidade é a razão de correr tão rápido e pisar tão forte no acelerador, pé de
  50. chumbo, diz minha mãe. Tenho medo de morrer pois não há redenção no fim da dor.
  51. Apenas o nada. Prometo não ler mais as letras miúdas. Prometo não sentir pena somente
  52. dos fracos. Tento desde sempre ser justo.
  53.  
  54. Sem idéias, sem fato, sem tato, um erro na noite, vinte clones perdidos na cidade,
  55. mais de cento e cinqüenta mil no mundo - um desastre no teclado. Falta de tempo
  56. filmando crustáceos, ouvindo professor do Julinho nos anos 60, criando espaços onde
  57. só há formol e Aeglas. Tardes vazias esquecidas no meio do tédio dos meus dias. Não
  58. como batata sorriso e no fim do dia somente uma pergunta: Por que as Clarissas sempre
  59. têm olhos claros?
  60.  
  61. <Written under the influence of smoked dried leaves of marijuana on april, 4, 2000>
  62.  
  63. ---Cardoso
  64.  
  65.  
  66.                          FARRAPOS, SEGUNDA À ESQUERDA
  67.                                         ---Galera---
  68.  
  69. Frequentemente me perguntam por que eu faço faculdade de
  70. Publicidade. Eu costumo responder que não sei direito, e na
  71. verdade eu mesmo me pergunto isso todos os dias, principalmente
  72. quando estou dirigindo pra Fabico ou prestes a entrar numa sala
  73. de aula pra perder meu tempo com uma disciplina cuja mera
  74. existência já é patética. Vim parar no curso de Publicidade meio
  75. por acaso. Quando adolescente (final de segundo grau, 16/17
  76. anos, aquela fase em que ainda acreditamos que fazer faculdade,
  77. trabalhar, é tudo um caminho óbvio, pré-determinado, que basta
  78. escolher um curso adequado a nossos gostos pessoais que teremos
  79. garantia de felicidade adulta e profissional) eu sabia que minha
  80. área de atividade seria o design gráfico ou algo parecido. Eu
  81. gostava de desenhar, tinha certa intimidade com computadores e
  82. com programação visual. Resolvi fazer o curso de Desenho
  83. Industrial na ULBRA. Foi por insistência do meu pai que também
  84. me increvi no vestibular da UFRGS, só pra ver no que dava.
  85. Olhando a lista de cursos, o que mais parecia se adequar a meus
  86. projetos de futuro profissional era a Publicidade e Propaganda:
  87. no currículo havia coisas fascinantes como Comunicação Visual,
  88. Roteiro de Cinema, Técnicas de Cinema e Televisão, Produção
  89. Gráfica, Laboratório de Comunicação Gráfica, cadeiras
  90. ("matérias") que atiçavam minha imaginação e que pareciam ter
  91. tudo a ver com minha opção.
  92.  
  93. Passei nos dois vestibulares (se bem que "passar na ULBRA" é uma
  94. construção lingüística que beira a incoerência, mas enfim). Fui
  95. feliz e faceiro cursar meu primeiro semestre de Desenho
  96. Industrial na ULBRA. Não durou um mês. Toda a minha idealização
  97. de uma vida universitária - pessoas criativas, jovens,
  98. interessantes, aulas fascinantes, festas, e também a promessa de
  99. finalmente obter algum conhecimento válido, aulas sérias,
  100. maturidade - foi rapidamente pulverizada. Os professores me
  101. tratavam como um aluno primário, as aulas pareciam uma cópia
  102. carbono das aulas de segundo grau, o ambiente da faculdade era
  103. hipócrita, competitivo e arrogante, e a matriz religiosa da
  104. universidade tolhia a expressão e a ação dos alunos. A ULBRA me
  105. transmitiu a sensação de uma grande empresa de treinamento, e
  106. não de uma universidade. Ainda bem que eu tinha passado em
  107. Publicidade na UFRGS! Cancelei meu curso na ULBRA logo no
  108. primeiro mês e me debandei pra Fabico.
  109.  
  110. Na Fabico, o "espírito" era outro. As pessoas eram mais jovens,
  111. alegres, "alternativas" (argh...). Havia festas, bandas, era
  112. permitido se expressar livremente, a sala de sinuca e o bar
  113. estavam sempre cheios. Embora algumas aulas ainda fossem
  114. extensões metidas a besta de colégios de segundo grau, em outras
  115. dava pra gente ter a sensação de ser um "universitário". A
  116. faculdade tinha problemas de instalações, equipamento e falta de
  117. professores, mas por outro lado tinha uma vida acadêmica mais
  118. ativa e autêntica. Os alunos... bem, os alunos eram na maioria
  119. irresponsáveis, arrogantes e infantis como em qualquer outra
  120. universidade, e eu nunca fui exceção. Mas quero voltar a este
  121. assunto - o da irresponsabilidade e falta de interesse de
  122. professores e alunos na eduçação - mais tarde, em outra coluna.
  123. Agora eu quero falar sobre a Publicidade.
  124.  
  125. Antes de entrar para o curso, eu me perguntava pra que servia o
  126. curso de Publicidade. Hoje eu ainda me pergunto a mesma coisa.
  127. Quanto mais semestres passam, quanto mais cadeiras de "Redação
  128. Publicitária" eu frequento, mais eu me convenço de que todo
  129. esforço de fazer a Publicidade parecer uma área de conhecimento
  130. é uma bobagem. Um professor da Fabico disse uma vez em aula: a
  131. Publicidade é o estudo do nada. Tudo bem, o cara é irônico e
  132. exagera. Mas peraí: não, ele não é. A publicidade é o estudo do
  133. nada. Eu já fiz 3 estágios: um numa agência de publicidade,
  134. outro num estúdio de design e o terceiro num provedor de acesso,
  135. o ZAZ. Todo o conhecimento que utilizei nestas atividades foi
  136. obtido fora do curso de Publicidade: domínio de linguagem html,
  137. uso de softwares gráficos, cultura geral, talento para escrita,
  138. paciência, capacidade de elaborar trocadilhos.
  139.  
  140. O que a Publicidade exige de um sujeito é que ele seja
  141. espirituoso, saiba usar computadores, tenha muitas referências
  142. culturais e pouca preocupação com a ética. Opa! Tá aí uma
  143. afirmação radical: a publicidade é anti-ética. Já tive a chance
  144. de discutir isso com professores, muitos deles publicitários de
  145. carreira. Tentaram me convencer que a publicidade só não é ética
  146. quando é realizada por maus profissionais. Que a publicidade é
  147. um serviço que o público precisa, pois trabalha a favor de suas
  148. necessidades e desejos. No discurso, esta defesa da publicidade
  149. quase convence. Na prática, ela se esfarela. O que vemos na
  150. publicidade é mais completa imbecilização dos indivíduos em nome
  151. da competitivide do mercado, esse valor segrado que ningúem ousa
  152. acusar. É a apropriação degradante de valores culturais em nome
  153. de uma lógica mercadológica da qual as pessoas não podem
  154. escapar, por mais que discordem dela.
  155.  
  156. Ser publicitário é colocar-se como mais uma engrenagem girando a
  157. favor desta lógica. Não adianta ser um sujeito ético: a razão de
  158. ser da publicidade em si é anti-ética. Um publicitário precisa
  159. pensar assim: "que público vamos ATINGIR para promover esta
  160. marca de iogurte? Vamos atingir as crianças e adolescentes,
  161. faixa etária dos 10 aos 17 anos, e as donas-de-casa. Vamos
  162. atingi-los através de tais e tais veículos de comunicação,
  163. criando peças publicitárias que apelem para seus desejos e
  164. necessidades, de modo que eles se convençam de que precisam ou
  165. querem comprar este iogurte". Se o publicitário conseguir isso,
  166. terá criado uma boa campanha e será um bom profissional.
  167.  
  168. As teorias de marketing insistem que estes desejos e
  169. necessidades dos consumidores não podem ser inventados: eles
  170. sempre existiram, e o marketing e a publicidade estão aí pra
  171. satisfazê-los. Isso é uma mentira travestida de verdade. As
  172. necessidades e desejos de fato existem, mas raramente o que de
  173. fato precisamos para satisfazê-los é uma marca de iogurte, um
  174. carro do ano ou um produto ou serviço qualquer. A magia da
  175. publicidade, o segredo do publicitário talentoso, é conseguir
  176. convencer o consumidor de que o produto anunciado é capaz de
  177. satisfazê-lo, como substituto mercadológico das suas verdadeiras
  178. necessidades e desejos. Uma vez, numa outra coluna, usei um
  179. exemplo de propagandas de margarina. Volto a usá-lo: quando uma
  180. propaganda de margarina mostra uma família perfeita, acordando
  181. feliz, vemos o caçula preparando um delicioso café da manhã,
  182. todos sorriem, marido e esposa se amam, os filhos adolescentes
  183. não têm problemas, a casa é bem-decorada, a mesa do café é
  184. impecável, e a margarina está ali, o agente mágico de toda esta
  185. utopia capitalista, ao alcance das donas de casa nas prateleiras
  186. de um supermercado por menos de 2 reais. O que a dona-de-casa
  187. realmente precisa, necessita, é de uma família como aquela, e
  188. não da margarina. Mas um comercial bem feito vai convencê-la e
  189. que a margarina resolve tudo. A dona-de-casa vai comprá-la,
  190. somente para descobrir que tudo isso é uma ilusão, até que o
  191. próximo comercial sugira uma nova mercadoria como substituta da
  192. felicidade e do prazer. Quem nunca sentiu-se frustrado momentos
  193. depois de perceber que acabou de gastar dinheiro em algo que
  194. absolutamente não necessita?
  195.  
  196. Essa é a verdade que não se ensina nos cursos de publicidade. E
  197. é pra mim cada dia mais desanimador entrar numa sala de aula pra
  198. ter mais uma pseudo-aula de técnicas de criação em publicidade,
  199. sabendo que toda a problemática social desta atividade passará
  200. em branco no curso, com exceção de raros professores que são
  201. capazes de transcender a demagogia e tentam fazer os alunos se
  202. afastarem da questão e observá-la de longe.
  203.  
  204. Novamente, me imagino dentro de uma aula do curso de
  205. publicidade, e observo os rostos de meus colegas. Os que não
  206. estão brincando ou fazendo piadas estão quietos, com o olhar
  207. vago, perdidos, pensando em outra coisa ou rabiscando coisas
  208. mais interessantes num caderno. No fundo, todos podem intuir que
  209. o curso de publicidade é uma piada; que, se alguém deseja de
  210. fato ser publicitário, poderia estar fazendo alguns cursos
  211. técnicos por aí, e que um curso universitário com esse nome
  212. parece ter a única pretensão de dar à Publicidade um verniz
  213. teórico que ela não admite, um caráter de conhecimento que nada
  214. mais é do que um fantasma hipócrita da realidade do mundo
  215. publicitário.
  216.  
  217. O que me mantém nesta faculdade é somente a proximidade da minha
  218. formatura. Uma resistência covarde. Dificuldade de admitir pra
  219. mim mesmo que estive perdendo meu tempo durante mais de três
  220. anos. Me resta a esperança de realizar uma monografia séria e de
  221. fato válida, algo que contribua para o meu conhecimento e para o
  222. dos outros, e depois fazer boas escolhas de pós-graduação.
  223.  
  224. Já ouvi de professores: "quem gosta de escrever deve se inclinar
  225. para o lado da redação publicitária". Bobagem. Quem gosta de
  226. escrever deve escrever, e não ser publicitário. Quem gosta de
  227. design gráfico não deve se "inclinar pro lado da criação" em
  228. agências. Deve ser artista, designer. A Publicidade é um ralo
  229. para talentos. Um bueiro atraente, glamourizado, que reserva a
  230. possibilidade de fama e riqueza. Há quem caia nele e nunca se dê
  231. conta que é o esgoto.
  232.  
  233. ---Galera
  234.  
  235.  
  236.                              CLICHÊS, VEGETAIS E CLONES
  237.                                                   ---Baldi---
  238.  
  239. Carinhas preocupados demais com sua produção literária. Sim, amiguinhos, porque a
  240. preocupação pode ser mãe do sucesso. Pode matar, entretanto. E ouço, então, mais uma
  241. vez aquele papo dos clichês. E ouço da boca de alguns colunistas do COL, e ouço da
  242. boca do Assis, que do alto de sua escada intimista de timidez, me acha um fracasso
  243. social. Pois bem.
  244.  
  245. Tudo que tu, por ventura, venha a escrever ou será um clichê ou será um clichê em
  246. potencial. Não se foge disso. É a dura realidade. Ainda que tu salve em C:\Meus
  247. Documentos\Litertura\TextosParaNãoMostrarPraNinguém, ele vai estar lá. Já vai existir
  248. e nada impede que alguém tenha a mesma idéia, escreva e publique. E outro copie. E
  249. depois mais outro. E o que tu terá, depois, será só mais um clichê. Não interessa se
  250. foi tu que escreveu primeiro: clichês são clichês. Atemporais e eternos. Ninguém é
  251. criativo para sempre...
  252.  
  253. Além do mais, esteja certo que tu não vai comprar criatividade nem inovação. O mundo
  254. não é o Caleche.
  255.  
  256. Acontece que algumas coisas são estilo. Não deixam de ser clichês, mas são estilo.
  257. Tipo assim: eu sempre escrevo a segunda pessoa do singular com a conjugação verbal da
  258. terceira. E daí? Milhares de pessoas fazem isso, pelo menos cá na província. É um
  259. erro clichê. Assim como há acertos clichês. Se eu usasse a conjugação correta eu
  260. estaria, também, caindo no clichê. Na verdade só por tu estar vivendo, respirando,
  261. comendo e cagando, tu já é um clichê vivo. Não interessa se tu é introspectivo,
  262. drogado, nerd, gay, etc.. Isso são pronomes, são preposições. Nossos verbos,
  263. adjetivos e substantivos são os mesmos.
  264.  
  265.  
  266.                                        *********************************
  267.  
  268. Tem gente que come laranja, alface, cebola, agrião. Há, acreditem, os que comem açaí.
  269. Não é folclore. Há rumores de que açaí é um lance que se come numa tigela. E com
  270. bananas, vejam só.
  271.  
  272. Eu quero sucrilhos. Dizem que é milho. Flocos de milho, mais especificamente. Mas
  273. quem é que vai cair nessa de que aquele troço crocante, coberto de açucar, é um
  274. milho. Ora, milho, se vocês se lembram, é um cilindro cheio de bolinhas amarelas.
  275. Nada no mundo pode ser mais diferente de sucrilhos do que um milho. Aliás, milho, no
  276. velho mundo, é alimento de vaca. No velho mundo, onde eles comem até lesmas.
  277. Sucrilhos não é milho, se você milho eu não comeria.
  278.  
  279. Vegetais, humpf. Isso é ser reacionário. Ora, acordem, vivemos uma era de intenso
  280. desenvolvimento tecnológico. Podemos fabricar alimentos com isopor, papelão e algum
  281. corante. Não é isso que eles fazem no Mc Donald's? Podemos ter oitenta e três safras
  282. de abacaxi por ano, mas é claro que algo com oitenta e três safras não é, nem nunca
  283. será, um abacaxi. Que coisa mais conservadora isso de plantar. Morram reacionários.
  284. Morram.
  285.  
  286. Garanto que o Mendelski come açaí toda manhã, antes de ir pra gaúcha fazer o pior
  287. programa de rádio da história.
  288.  
  289. Eu quero asfalto, fumaça de ônibus, sucrilhos. Ah, e um Big Mac.  
  290.  
  291.  
  292.                                      *********************************
  293.  
  294. Sobre aquela teoria que anda por aí. Aquela que diz que o Cardoso e o Scooby são a
  295. mesma pessoa. É mentira! Eles são clones.
  296.  
  297. Sei disso porque, esses dias, eu estava conversando com o Scooby na Famecos. Saí de
  298. lá e peguei um ônibus. Sentei bem atrás. Vi o Cardoso lá na frente, sentado nesses
  299. bancos de grávidas. Pensei: depois eu falo com o cara. Quando o ônibus passava na
  300. frente da Fabico eu vi o Cardoso na calçada da Ipiranga. Como ele pode estar em dois
  301. lugares ao mesmo tempo? Ora, um dos dois não era o Cardoso, e nenhum deles era o
  302. Scooby, já que o Scooby tava lá na Famecos. Quando passei a roleta, vi que o cara do
  303. ônibus levava uma pasta onde se lia "Análise de Sistemas".
  304.  
  305. Há alguém, em algum porão de Porto Alegre, fabricando clones bizarros e mal
  306. acabados. Alguém que pretende dominar o mundo com uma exército de ruivos com
  307. cavanhaque. Alguém que, felizmente, ainda não acertou a fórmula, que tem criado, até
  308. agora, apenas esboços do que poderá, em breve, oferecer algum perigo. Logo chegará o
  309. dia em que uma horda ensandecida de freaks avermelhados descerá a Osvaldo e tomará o
  310. Bom Fim. E eles terão os computadores, as guitarras e as canetas. E nós seremos os
  311. escravos da barbárie.  
  312.  
  313. (NOTA DO EDITOR: É tudo verdade, menos a parte do "mal acabados".
  314. Tem mais uns 3 clones meus na Fabico, além de vários que tu encontra pela
  315. cidade perdidos. Sem contar no Azulzinho que uma amiga minha
  316. pensou que fosse eu e o bizarro caso da minha prima que passou mais de cinco
  317. minutos chamando um cara de "neni" <meu apelido de criança> que depois percebeu
  318. não se tratar de mim. E as minhas inúmeras aparições em shows de TV na Deutches
  319. Welle, em filmes holandeses e da minha espantosa semelhança com o Boris Becker.)
  320.  
  321. ---Baldi
  322.  
  323.                             AVERBUCK IS ON THE TABLE
  324.                                        ---Clarah---
  325.  
  326. Não sou exatamente uma pessoa tímida. Acontece que às vezes sou atacada pela
  327. Conchita, um espírito maligno de uma mexicana tímida que faz eu encolher e
  328. sumir entre meus ombros e ser gaga. De qualquer maneira, quando a Conchita
  329. não está por perto e meus amigos estão -- ela nunca aparece na presença
  330. deles-- eu normalmente sou bem saidinha.
  331.  
  332. Pois  a Conchita me sacaneou.
  333.  
  334. Eu tenho três grandes ídolos: Groucho Marx, John Fante e Luís Fernando
  335. Verissimo. Tem o Jorge Furtado também, que demorou mas já consigo falar com
  336. ele sem ficar gaga nem suar. O Groucho e o Fante estão mortos, então eu
  337. converso com eles sem problema nenhum. E o Verissimo, bem, ele está vivo.
  338.  
  339. Eu já tinha sido apresentada a ele pelo meu pai, há mais ou menos um ano, e
  340. foi muito, muito constrangedor. Algo como "essa aqui é minha filha, ela é
  341. super tua fã e escreve também". Foi a primeira manifestação da Conchita :
  342. fiquei gaga, suei, esqueci de respirar e disse "Ok, pai, não me constranja",
  343. foi a única coisa que me ocorreu. Claro que o Verissimo não deve lembrar
  344. disso, afinal, ele deve ser apresentado a fãs dez mil vezes por dia.
  345.  
  346. Pois terça, no Sarau Elétrico (todos sabem o que é o Sarau Elétrico,
  347. certo?), o convidado era niguém mais ninguém menos que o --tanananã--
  348. Verissimo. Chegando no Sarau, dei de cara com ele, o que fez meu coração
  349. acelerar a 477 bpm. Mas ok, até ali tudo bem, ele não fazia idéia de quem eu
  350. era, não falando com ele e me mantendo distante não tinha o que dar errado.
  351. Fiquei relativamente longe achando que tudo se resolveria. Ha-ha-ha, pobre
  352. inocente que sou. Meu namorado começou a falar com ele e me chamou pra
  353. perto. O que eu ia dizer, "não, não posso, sou cardíaca e isso pode me
  354. matar"? Não dava. Fui. Fiquei uns quinze segundos (ou três anos) parada
  355. olhando pra cima até que meu namorado, tentando acabar com o
  356. constrangimento, resolveu falar: Eu sei que vocês já conhecem, mas essa é a
  357. Clara. Ugh. Minha úlcera dançou Polca e eu disse algo parecido como
  358. "Oitdbem?" nem olhando direito pra cara dele. Quis sair de perto, sentei na
  359. janela e lá veio a Conchita me fazendo ficar do tamanho de um playmobil. Um
  360. playmobil aleijado. Tudo que eu queria era ir embora, eu estava me sentindo
  361. a escória da humanidade, eu queria ir pra casa e me enfiar embaixo da cama
  362. com o Arturo, meu gato fofo. E eu fui. No momento em que o Verissimo falou
  363. "a" no microfone, eu levantei, disse pro Diego que queria ir embora, e
  364. fomos. Cheguei em casa e fiquei sendo uma ridícula, chorando. Imagina. Eu
  365. tive um ataque de pânico por causa do Luís Fernando Verissimo, aquela santa
  366. criatura pacata e genial.
  367.  
  368. Acho que o pânico que eu tive é proporcional à minha admiração. Poxa, eu
  369. adoraria conversar com ele e dizer o quanto eu gosto do que ele escreve, o
  370. quanto me influencia, o quando eu admiro a capacidade dele de falar de
  371. assuntos sérios usando a melhor arma do mundo, a ironia. Não tem jeito
  372. melhor de falar sério do que sendo engraçado. Mas não, eu nunca vou fazer
  373. isso porque sou avessa a tietagens (nunca pedi e nunca vou pedir um
  374. autógrafo) e porque é ridículo falar esse tipo de coisa -- quem disse que
  375. ele se importa, afinal? O cara SABE que escreve bem, sabe que é  o melhor
  376. cronista brasileiro atualmente.
  377.  
  378. Aliás, tem gente que diz que eu copio o Verissimo e isso é um saco.
  379. Primeiro, porque eu não copio. Segundo, porque se eu chegasse aos
  380. calcanhares dele já seria uma pessoa feliz. Talvez eu devesse levar como um
  381. elogio, já que o simples fato de conseguir copiar o Verissimo decentemente
  382. seria um mérito, mas não é exatamente assim que vejo a situação. O Assis
  383. Brasil, meu querido professor, me disse pra não dar bola pra isso, dizem que
  384. ele escreve parecido com o Verissimo Pai e ele não sabe abala , mas de
  385. qualquer maneira, acho um saco ficarem comparando o tempo todo.
  386.  
  387. Parece tudo muito babaca, mas o leitor tem que entender que LFV é realmente
  388. meu ídolo. Não sei se ídolo é a palavra certa,  porque idolatria é uma coisa
  389. deveras idiota. Também não gosto do termo "fã", já que vem de fanatismo.
  390. Admiradora, talvez? Aí parece que é da pessoa, não da obra. Enfim, não sei
  391. qual o termo correto, só sei que gosto muito do que ele escreve e tive uma
  392. crise de pânico sem motivo aparente. Já conheci outras pessoas que admiro
  393. pra caralho, como o Chico Science e a Nação Zumbi inteira, os caras do
  394. Jamiroquai, enfim, muita gente, fui criada no meio de pessoas relativamente
  395. famosas,  pra mim é a coisa mais natural do mundo. A questão é o que o
  396. sujeito representa para você, e no caso, o Verissimo é tudo que eu quero ser
  397. quando crescer. Isso, claro, se a Conchita não me matar de vergonha um dia
  398. desses.
  399.  
  400. ----
  401.  
  402. Ei,  hoje eu vou estar no programa da Katia Suman. Minha primeira
  403. entrevista. Fera, hein? Ouçam, ouçam. É das 20 às 22h. Quem mora em outro
  404. estado ou não tiver saco pra ouvir rádio e quiser escutar pela internet, dá
  405. pra acessar a página da PopRock e ouvir em Real Audio. O progresso não é uma
  406. coisa linda?
  407.  
  408. ----
  409.  
  410. Eu sei que as minhas colunas andam curtas. Estudar de noite é um saco,
  411. porque é exatamente o horário que eu gosto de escrever. Como eu chego podre
  412. de cansada da aula, não tá sendo possível. Não nasci pra viver de dia, sabe?
  413. O dia é feito para as burocracias e a noite é feita para o que a gente
  414. quiser. O problema é que eu ando querendo dormir. E agora, Jacó?
  415.  
  416. ---Clarah
  417.  
  418.  
  419.                                     ARICLENES
  420.                                 ---Lobo da Estepe---
  421.  
  422. Ariclenes era tarado. Completamente tarado. Não
  423. especificamente no sentido em que o termo denota uma
  424. doença ou o despudor total; mas que ele era tarado,
  425. isso ele era. Despia todas as mulheres com os olhos
  426. independentemente de idade cor ou credo; era um
  427. conquistador inveterado e um estudioso das artes
  428. sexuais; aliás era esta a sua única religião.
  429. Inveredara-se desde novo nas mais complexas ou reles
  430. leituras indo de obras como o Kama-Sutra(do qual
  431. vangloriava-se sabê-lo de cor) as revistas
  432. pornográficas(ilustradas ou não ) do mais baixo calão;
  433. conhecia a obra do Marquês de Sade assim como a sua
  434. vida e a de Madame Pompoir; os livros de Bukoswsky e a
  435. poesia de Burroughs; as técnicas orientais do
  436. Tantrismo além das filosofias de diversas outras
  437. nações sobre a forma, a quantidade e a técnica
  438. utilizada no ato sexual. Enfim, Ariclenes além de um
  439. grande tarado era um estudioso no assunto e em tudo o
  440. que dissesse respeito a sexo.
  441. Porém ele não absorvia o conhecimento com o intuito de
  442. divagar ou explanar sobre o assunto; absorvia-o como
  443. absorvia as mulheres que por sua vida passavam:
  444. tirava-lhes a essência, aquilo que poderia e iria ser
  445. usado nas experiências posteriores e quando julgava
  446. não haver nada mais de novo a ser aprendido
  447. descartava-se da fonte fosse ela livro, revista ou
  448. mulher.
  449. Enumerar as experiências vividas pôr Ariclenes
  450. levariam uma obra inteira
  451. (interessante diria ele) porém a ocasião que venho a
  452. narrar é única e crucial para que entenda-se as
  453. alterações ocorridas na vida deste homem e o quanto
  454. nossa mente é vulnerável as probações que nos são
  455. impostas no decorrer de nossas existências .
  456. Aconteceu no mês de Agosto.
  457. Ariclenes lançara suas investidas durante meses em uma
  458. professora universitária que conhecera em uma de suas
  459. diárias rondas noturnas pela cidade. Registre aqui
  460. dois fatos: o primeiro é que de forma alguma suas
  461. atenções foram dirigidas única e exclusivamente para
  462. ela durante os oito meses em que ela relutou
  463. entregar-se a ele, pois dezenas de outras passaram por
  464. seus braços durante este período; a segunda consiste
  465. na causa da relutância dever-se ao fato da jovem
  466. moçoila ser na época e até os dias de hoje casada com
  467. uma importante personalidade local. Pode parecer
  468. pretensão dizer isso sobre o impedimento da jovem mas
  469. agora me ocorre não ter mencionado que ele devorara a
  470. extensa biografia de Casanova para aperfeiçoar suas
  471. técnicas de aproximação e, como bom aluno que era,
  472. conhecia a arte da sedução.
  473. Enfim, a cabo de oito longos meses ela cedeu.
  474. Chamava-se Rita e realmente valia toda a insistência:
  475. cabelos loiros muito claros e lisos corriam-lhe até os
  476. ombros, uma tez pálida contrastava com o azul
  477. cintilante dos olhos, nariz fino e levemente
  478. arrebitado, lábios claros e doces(só poderiam doces
  479. ser) os seios médios desafiavam a lei da gravidade com
  480. os mamilos róseos e que quando túrgidos apontavam aos
  481. céus. Cintura delgada ,ancas firmes e o monte de Vênus
  482. loiro. Loiro! Eram essas suas impressões da primeira
  483. vez em que a despira com os olhos. Não mostrou-se
  484. surpreso com a conquista, havia já planejado inúmeras
  485. vezes o roteiro daquela noite tendo inclusive
  486. testado-o com algumas de suas conquistas anteriores.
  487. Embarcou-a em um ponto previamente combinado em seu
  488. carro e iniciou uma conversação leve e sensual que foi
  489. rapidamente aceita e entusiasticamente respondida
  490. enquanto dirigia-se para um motel na cidade vizinha.
  491. Lá chegando, tratou primeiramente de encher a banheira
  492. pois pretendia aplicar-lhe uma técnica européia de
  493. massagem sobre a qual havia recentemente lido. Neste
  494. ínterim foi despindo-lhe suavemente as roupas peça a
  495. peça e percebendo o quanto ela preparara-se para o
  496. ato: sob o vestido de seda estava usando um espartilho
  497. de cor negra , calcinha de renda da mesma cor e meias
  498. sete oitavos que subiam dos sapatos de salto muito
  499. alto até as coxas excelentemente torneadas. Desistiu
  500. de todo roteiro pré estipulado inclusive da banheira
  501. que estava prestes a transbordar e despiu-se de forma
  502. assombrosamente rápida para possuí-la o mais rápido
  503. possível.
  504. Não se sabe e talvez nunca saber-se-á se foi o tempo
  505. de espera, a banheira transbordando, o espartilho ou
  506. aquele monte de Vênus que era realmente loiro mas o
  507. certo é que naquela noite ele não conseguiu ter mais
  508. uma de suas fabulosas e duradouras ereções. Estava
  509. chocado. Seu melhor e mais fiel amigo falhara no que
  510. seria um dos mais sublimes momentos de sua carreira de
  511. conquistador; o auge talvez. Mas falhou. Rita também
  512. estava chocada. Afinal conhecia a fama do homem com o
  513. qual estava agora deitada. Ao lado.
  514. Consternados pegaram silenciosamente suas roupas e
  515. vestiram-se ; ele ainda deu um último olhar de relance
  516. para o espartilho que havia sido vestido justamente
  517. para o momento em que ela cederia as suas insistentes
  518. pressões. Dirigiram-se ao carro. Ainda sem dizer uma
  519. palavra indicou-a o banco traseiro do carro. Sua
  520. vergonha era tamanha que não poderia jamais fitar
  521. novamente aqueles olhos azuis cintilantes apesar de
  522. ele não poder vê-los encontravam-se opacos naquele
  523. momento. Na despedida que não houve, ouviu o bater da
  524. porta e arrancou sem jamais voltar a cidade.
  525. Más línguas contam que longe dali adotou o celibato,
  526. retornou aos estudos, formou-se e hoje é um grande
  527. urologista. Sua especialidade: prótese peniana.
  528.  
  529. ---Lobo da Estepe
  530.  
  531.  
  532.                                 A VERDADEIRA MAIONESE
  533.                                             ---Träsel---
  534.        
  535.          [q u e  s e  j o g u e m  o s  l i v r o s  n a  f o g u e i r a]
  536.  
  537. o problema de se ler muito é que a gente não consegue mais parar de reclamar da vida.
  538. se eu pudesse voltar uns 15 anos, jamais pegaria um livro na mão. a leitura tornou
  539. a minha existência um inferno. porque ler faz a gente pensar sobre o mundo, o que
  540. fatalmente nos leva a questioná-lo, e isso não é bom. dá um mau-humor desgraçado.
  541. se você está lendo essa COLuna, acho que não adianta mais dizer pra tomar cuidado com
  542. os livros. já deve ter lido algumas coisas que abriram sua mente. e uma vez que a
  543. mente se abre, ela nunca mais cabe na mesma cabeça de antes. mas se você tem irmãos
  544. pequenos, dê um conselho realmente bom e mande eles irem
  545. jogar futebol ou videogame, em vez de ler.
  546.  
  547. eu gostaria de não ficar me irritando com as pessoas irresponsáveis com a própria
  548. vida. elas ficam colocando a culpa de todos os problemas nos outros. até é
  549. compreensível. quando somos pequenos, ficam dizendo por aí que nossos pais, deus ou
  550. algum cônjuge vai tomar conta da gente. aí crescemos e descobrimos que não é bem
  551. assim. que estamos sozinhos no mundo, só podemos contar com nós mesmos. aí alguns
  552. se  sentem injustiçados e ficam reclamando da conspiração mundial pra fazer suas
  553. vidas darem errado. é da nossa natureza, não adianta. até sabemos que somos os únicos
  554. e maiores, 100% responsáveis pelas merdas que nos acontecem, mas a maior
  555. parte das pessoas resolve ignorar isso pra não ter de tomar uma atitude sobre o
  556. assunto. porque na verdade é muito chato e trabalhoso levantar e fazer as coisas.
  557. sentar e chorar é confortável e qualquer imbecil consegue.
  558.  
  559. é que, se nos decidimos a lutar em vez de lamentar, começa outro problema. notamos
  560. a possibilidade de viver de acordo com as próprias convicções e ideais. quase
  561. ninguém faz isso. mas todos que fizeram, viraram grandes homens. che guevara podia
  562. ter continuado ministro em cuba, mas foi morrer na bolívia porque achava ser esse o
  563. caminho. alexandre, o grande, só parou de conquistar territórios quando pegou uma
  564. doença fatal na índia. madre teresa ajudou quixotescamente os pobres até o último
  565. dia. nossa consciência fica enchendo o saco quando vê que poderíamos levar as
  566. convicções às últimas conseqüências, mas não levamos só por acomodação. não acho
  567. que todos devam sacrificar a vida em favor de um ideal, virar um mártir do
  568. existencialismo, mas  nem mesmo nas pequenas coisas do cotidiano vivemos de
  569. acordo com o que pensamos.
  570.  
  571. faça um exercício. feche os olhos e respire por uns 10 minutos se concentrando apenas
  572. no ar que entra e sai das narinas. espere os pensamentos se acalmarem e faça a
  573. seguinte pergunta: eu estou de acordo com o rumo que dei à minha vida? eu acredito
  574. no sentido da minha existência? pouca gente vai responder honestamente que sim.
  575. eu, por exemplo, não estou num caminho em que acredito. me fiz essa pergunta e
  576. concluí que, em vez de me formar em jornalismo e trabalhar na zero hora, deveria
  577. largar tudo, me tornar instrutor de yôga e ter um monte de tempo pra escrever. mas
  578. não faço, nem acho que vou conseguir fazer isso. porque vai ser preciso muita força
  579. pra romper com todas as pressões sociais que me impedem. vou me expor a muita dor. já
  580. até enxergo os olhares dos meus pais nos almoços de domingo, entre piedosos e
  581. censores. "largou uma carreira tão promissora pra virar um vagabundo que só fica
  582. meditando o dia todo." não é ridículo? me sinto um fraco desprezível. há também a
  583. possibilidade de fracasso na tentativa. um pouco de preguiça, precisaria me dedicar
  584. todo dia à prática. obstáculos contornáveis, mas ainda assim não que teria coragem
  585. suficiente. esmoreci na primeira dificuldade.
  586.  
  587. por isso eu digo pra não lerem nada. sobretudo nietzsche. o resumo da filosofia desse
  588. alemão bigodudo é que devemos ser fortes, nos expormos à dor pra viver de acordo
  589. com nossos ideais. agora vou ficar me atormentando por saber o que é certo, mas ser
  590. covarde demais pra fazer. vou me tornar um velho amargo e ressentido, um dia. ou
  591. enfiar 50g de chumbo e pólvora no céu da boca. alguém como eu não merece viver. tudo
  592. pra não sentir um pouco de dor. sim, acho que eu vou me matar. mas vocês, se
  593. escolherem ficar vivos, ao menos façam as coisas direito. ou então façam como eu e
  594. parem de ocupar espaço e gastar oxigênio.
  595.  
  596. [k i n e m a s k ó p k e s]
  597.  
  598. o mojo levantou uma bola interessante. fiquei pensando em quais são os filmes mais
  599. perturbadores que já assisti. meu primeiro escolhido seria <os idiotas>, do lars von
  600. trier [ou do colega dele; só sei que segue o dogma 95]. não há nada de mais na
  601. história, é apenas um bando de amigos que se fingem de retardados na politicamente
  602. correta e socialmente justa dinamarca. eles levam ao limite o fingimento, tentando
  603. romper  com a sociedade. eu saí enjoado do cinema.
  604.  
  605. <lost highway> é tenebroso. nunca gostei de filmes sem um roteiro lógico, uma
  606. história linear. achava coisa de modernetes acéfalos. mas lost highway acabou com os
  607. meus preconceitos. é um pequeno passeio pelos bosques frondosos da loucura.
  608. esteticamente, um pesadelo. como aqueles da infância. parece que o david lynch
  609. resolveu nos levar de volta àquelas noites insones por causa da mão que agarraria
  610. nosso pé se dormíssemos.
  611.  
  612. <além da linha vermelha> perturbou por fazer pensar no absurdo da condição humana.
  613. isso geralmente dá filmes franceses chatos, mas não é o caso. a história prende por 3
  614. horas sem distrações. a fotografia é humilhante. é lindo. não esqueço a parte em que
  615. o personagem mais central escreve pra sua mulher sobre a vida dos aborígenes nas
  616. ilhas do pacífico: "eu vi um outro mundo". mesmo assim, ele é obrigado a voltar pro nosso
  617. mundo, pra guerra. ou da frase que o cardoso lembrou no COL 152: "você acha que vai
  618. sofrer menos só porque é um bom homem?"
  619.  
  620. outro filme que me vem à cabeça é <funny games>, de um diretor austríaco. é sobre
  621. dois adolescentes que começam a torturar uma família só porque não têm mais o que
  622. fazer. ok, na sessão da tarde se vê coisa bem pior. mas nesse filme a perturbação vem
  623. do fato de nunca aparecer uma cena explícita de violência. tudo é subentendido. a parte
  624. em que a câmera fica parada filmando por uns cinco minutos o pai chorando pelo filho
  625. morto dá vontade de sair correndo do cinema e jamais engravidar uma guria.
  626.  
  627. tem o velho <kids>, também. um retrato de uma geração realmente sem futuro. sem
  628. motivações. sem ideais. sem valores. mas com instintos sexuais e agressivos. e aids.
  629. assisti há muito tempo, na época me perturbou. hoje eu não sei mais se eu ficaria tão
  630. impressionado. acho que sim.
  631.  
  632. <a vida sonhada dos anjos>  não tenho certeza se francês ou belga, é outro filme que
  633. me marcou. trata da vida de duas meninas que passam a morar juntas e se tornam
  634. amigas. a impressão do espectador é a de estar dentro do filme, participando da vida
  635. delas. o dogma 95 busca dar aos filmes a maior realidade possível, mas a <vida sonhada
  636. dos anjos> é, sem dúvida, o que mais se aproxima de um filme real. os atores não usam
  637. maquiagem, os cenários não são artificiais. mas a fotografia é boa. e é em película.
  638. a história é bem pesada, depressiva mesmo
  639.  
  640. ---Träsel
  641.  
  642.  
  643.                E PRA QUEM RECLAMA QUE NÃO TEM POESIA
  644.                                         ---Kbrito---
  645.  
  646.         @@@@@@@ ....... ( a farsa dos quinhentos ) ....... @@@@@@@
  647.         +++ presentado por cabrito, o mino das canelas finas +++
  648.  
  649.  
  650.         i. a gema
  651.  
  652.         somos, logo pensamos. ou não ?
  653.         somos o que pensamos. somos quem podemos ser.
  654.         somos guerreiros, pajés, xamãs, meninos. somos os meninos e as meninas.
  655.         somos as famílias.
  656.         somos a turma, a gangue, a patota, a tribo.
  657.         somos o medo de morrer, o medo de matar.
  658.         somos a verdade, somos a mentira. depende do referencial.
  659.         somos o tabu. somos trovões, barulhos, chiados, gemidos.
  660.         somos nus. todos índios. todos primatas. mata mata na mata.
  661.         somos consideramos inferiores, subdesenvolvidos. fomos colonizados.
  662.         somos preguiçosos - o ócio materializado. somos crucificados.
  663.         somos colonizados.
  664.         somos a ganância. somos a inveja. a violência.
  665.         somos a ira, o vergonha e a igreja. somos vestidos.
  666.         somos tudo e nada. agora somos o que não somos.
  667.         somos a mão na massa. o trabalho escravo. o trabalho mal pago.
  668.         somos pestes. damos trabalho. tiramos trabalho. somos a peste.
  669.  
  670.         somos a maldição. passado, presente e futuro.
  671.  
  672.         -
  673.  
  674.         ii. a terra
  675.  
  676.         somos o arco íris, as ondas, a terra vermelha e roxa.
  677.         somos o sinal verde que nunca chega.
  678.         somos a fila que nunca anda. somos a fila cortada.
  679.         somos o morro. somos chapada. somos planalto, planície e depressão. suicídio.
  680.         somos a terceira margem do rio. a segunda e a primeira estação. somos maria
  681.             fumaça.
  682.         somos a estrada, o caminhoneiro. o feijão tropeiro, a feijoada da senzala.
  683.         somos a síndrome do egoísmo, somos o coqueiro que balança com o vento. somos
  684.             a praia
  685.             deserta.
  686.         somos as lendas, o mito padronizado, o pessimismo de fim de mês.
  687.         somos piranhas, comendo umas às outras.
  688.         somos as festas. celebração. ilusão.
  689.         somos a perda de sentidos em massa.
  690.         somos a ciência. podemos escolher a cor dos tomates e dos olhos do nosso filho.
  691.         somos aquela manhã de chuva em que o dever nos chama e fingimos não ouvir.
  692.         somos as janelas, testemunhas. somos os arranha céus e os coça sacos.
  693.         somos a américa, a áfrica, a europa e tudo quanto é canto.
  694.         somos os pássaros. os sábias que não cantam como lá. os sábios que não sabem
  695.             ensinar.
  696.         somos a noite clara em céu do campo. somos a terceira pedra do sol.
  697.         somos a música da companhia de gás. somos má companhia.
  698.         somos o horizonte. somos a poeira que as bactérias comerão.
  699.         somos o bolo, a receita. somos o pão que o diabo amassou.
  700.         somos tropicais, subtropicais. subdesenvolvidos.
  701.  
  702.         somos a vantagem em tudo.
  703.         somos os piores no que fazemos melhor.
  704.                
  705.         -
  706.  
  707.         iii. o homem
  708.  
  709.         somos pais neuróticos e serenos, mães angustiadas e problemáticas.
  710.         somos irmãos de sangue. irmãos como caim e abel. irmãos pela causa.
  711.         somos a independência proclamada. trocamos cavalos por burros.
  712.         somos o surto, a miséria.
  713.         somos a cavalaria, tocando a sirene. seis da manhã, todos em pé.
  714.         somos o que não pode parar.
  715.         somos o filho reprimido. comprimido. sedativos. i wanna be sedated.
  716.         somos as celebridades. as colunas sociais. a coluna que sustenta a hipocrisia.
  717.         somos a simpatia. antipatia. monotonia. anomia. anemia. mortalidade infantil.
  718.         somos burgueses sem religião. somos o sexo sem amor.
  719.         somos de plástico. de pedra, carvão, alumínio. somos o chumbo que faz a moeda.
  720.         somos o capital. da capital. somos interior, exterior e o além.
  721.         somos o pivete que pede dinheiro no sinal. todos marginais.
  722.         somos devotos. somos capitães, almirantes, brigadeiros, aniversários surpresa.
  723.         somos as curvas perigosas, as bundas maravilhosas, a paixão nacional.
  724.         somos a escrotidão disfarçada de nobreza. somos emergentes indo pro fundo.
  725.         somos a falta de valores, a falta de educação, a licença não pedida.
  726.         somos a moral. somos amorais. somos imorais. somos moraes, oliveira e silva.
  727.         somos falsos. somos importados do paraguai. temos iso nove mil e dois.
  728.         somos donas de casa, zeladores e bombeiros. policiais reformados.
  729.         somos quem achamos que somos.
  730.         somos herdeiros da ignorância. somos o preconceito.
  731.         somos a indiferença e a alegria numa noite de sexta.
  732.         somos a maldade que vem com o vento de Julho.
  733.        
  734.         somos tios e avôs
  735.         somos mulheres
  736.         somos homos
  737.        
  738.         homo sapiens
  739.         homo erectus
  740.         homo mongas
  741.         homossexuais e homens sensuais
  742.         somos a feiúra que desfila nas ruas e engana as passarelas.
  743.  
  744.         somos o que vocês fizeram de nós.
  745.         somos geração fechadura. somos o produto da sua paranóia televisiva.
  746.         somos ensinados desde pequenos que não podemos mudar o mundo,
  747.         ainda que possamos.
  748.         somos instituintes lutando contra a instituição.
  749.         somos idiotas, porque acreditamos em tudo o que lemos.
  750.         inclusive nisto.
  751.         somos, somos, somos
  752.         somos a soma de vários "somos"
  753.         somos envergonhados do ontem
  754.         somos donos de um presente desconcertante e a esperança para o futuro
  755.        
  756.         [ e quem sabe ] somos noventa linhas escritas num bloco de notas
  757.         manejado por mais uma pessoa que ninguem vai saber quem é
  758.         e mesmo que soubessem
  759.         o que saberiam ?
  760.         apenas montes de kbytes num computador anônimo
  761.        
  762.         somos vocês. viemos em paz. leve-me ao seu líder.
  763.  
  764.         somos o verbo.
  765.         somos a poesia e o samba no pé, a doença na veia.
  766.         somos isso, aquilo, aquele e aquela.
  767.         somos coisas. coisas coisadas pelo coiso.
  768.  
  769.         somos.
  770.         eu, você e todas as gerações.
  771.         foi, é e será.
  772.  
  773.         será?
  774.  
  775.         -
  776.  
  777.         iv. o fim
  778.  
  779.         somos obrigados.
  780.         de nada
  781.         por nada
  782.         à nada.
  783.  
  784.         somos então
  785.         sinto informar
  786.         uma coisa como quinhentas maneiras
  787.         de escrever BRASIL.
  788.  
  789.         e estou aprendendo tudo sobre minha vida
  790.         olhando através dos seus olhos.
  791.  
  792.  -- ' our deeds have traveled far
  793.         ( what we have been is what we are )
  794.         all that we learn this time
  795.         is carried beyond this life ' --
  796.        
  797.         Dream Theater, "Beyond This Life".
  798.  
  799. ---Kbrito
  800.  
  801.        
  802.                     O PEREGRINO DA CHINELAGEM ABSOLUTA
  803.                      (só tem um Gebal, mas a gente compra outro)
  804.                                     ---Hermano Freitas---
  805.  
  806.  "Sim, assim é assim," começa a crônica dos que não têm certeza Teremos
  807. amigos? Pouco importa, desde que agradeçamos a Deus saindo de carro para
  808. gastar muita gasolina. Não é noite de beber. Não é um mundo para se beber
  809. (pelo menos não de um gole só).
  810.  Uma vez.
  811.  Enfim, já faz tempo – nada importa quando o tempo necessário nos separa.
  812. Dane-se o inacessível, é só questão de gosto.
  813.  (Documentos dispostos simetricamente e sentir-se bem ou mal é a diferença
  814. de um gole.) Todos abandonaram teus pensamentos e convicções são teus
  815. melhores amigos fodendo num motel de quinta. É isso, sem palavras a mais nem
  816. a menos. (Um melindre no diálogo separa o limbo dos chatos do inferno dos
  817. condutores.)
  818.  Eles são os verdadeiros demônios.
  819.  Deus é quieto, santos são introspectivos.
  820.  Só o Diabo, seus seguidores e anjos são falastrões, mas essa não é uma boa
  821. frase.
  822.  E por que o dê? Por quê?
  823.  Folheiem com dedos seus erros, pois diabo e Deus começam na mesma letra, no
  824. mesmo princípio.
  825.  Desisto de apontar e, sobriamente, sucumbo de novo à embriaguez.
  826.  
  827.                                         *  *  *
  828.  
  829.                     EU TOREI NO BANHEIRO DO CINEMARK:
  830.                             UM DEPOIMENTO VERÍDICO
  831.  
  832.      Era uma seção das onze, horário de pobre no Cinemark: três pila. Estava
  833. passando o Romance X, aquele francês podre de bagaceiro. Entrei depois de
  834. começado o filme, aquela cena em que o francês brochão não consegue levantar
  835. nem com a boquinha da francesa chupando ele. O cinema estava vazio. Ninguém
  836. gosta de cinema francês, só eu. As cenas se sucediam europeicamente lentas.
  837. Era a terceira vez em que as via. Daquela não bateria punheta, lembro de me
  838. ter prometido antes de entrar, mas já me acariciava por sobre a bermuda.
  839. Ouvi um gemido que julguei ser do filme. Não era exatamente uma cena de
  840. sexo. Ouvi de novo. Olhei para trás e quem eu vejo no fundo? Uma mina. Mas
  841. não era bem uma mina, era a Sandy, irmã do Xororó Júnior. Não caminhei até
  842. ela: me precipitei, pulando as poltronas como um Roberto Begnini
  843. heterossexual. O lanterninha me apontou, eu apontei ele e mandei se foder.
  844. Devo ter sido convincente, pois não insistiu mais para que eu sentasse.
  845.  Sandy estava assustada comigo; eu ainda mais com ela. Disse:
  846.  
  847.        –  Oi, Sandy, e ela perguntou quem eu era e como tinha entrado ali,
  848. já que era uma seção especialmente para ela.
  849.  
  850.  Eu disse que escrevia para o Cardosonline e que quem escreve para o
  851. Cardosonline nunca é barrado em lugar nenhum.
  852.  
  853.     –   Você escreve para o COL? Mas eu sou assinante do COL! Leio e releio
  854. toda semana! Você não é do COL...
  855.  Fiquei de pau duro com o sotaque paulista de Sandy. Imaginei ela de quatro
  856. dando o cu pra mim (aaaaai, tá doeIndo!).
  857.  – Peregrino da chinelagem absoluta é o título, meu nome é Hermano Freitas.
  858.  Ela quase gritou: – Sou sua fã número um! Quero um autógrafo!
  859. Quase gozei. O que me intrigava era como uma BOA boa menina como a Sandy
  860. conseguia ver em nós, uma mina como ela não lê, e se lê não entende.
  861.  –   O "estilo Sandy" é só uma fachada, na verdade eu sou é festeira pra
  862. caramba, cago e ando pros meus pais, bebo toda noite e até curto umas
  863. coisinhas.
  864.  –    Mas e como esta pelezinha de seda?
  865.  –    Você não tem a menor idéia do que a indústria de cosméticos é capaz.
  866.  Não tinha mesmo. Ela me fuzilou:
  867. – Vamos cheirar um pó?
  868. – A esta hora da manhã?
  869. –    Antes do almoço, se não bato uns tequinhos eu fico na larica e como
  870. demais. Tem um bec de skunk pra depois.
  871. Era demais, fiquei com medo de morrer.
  872. Fomos pro banheiro, o guarda-costas ficou bloqueando a entrada.
  873. Sandy retirou a poeira de um crucifixo igual ao daquela gostosa do Segundas
  874. intenções, estendeu num espelhinho de bolsa uma linha de um dedo e aspirou
  875. tudo sem tossir.
  876. Gemeu do jeito mais sexy que alguém poderia gemer.
  877. Deu o espelho pra mim.
  878. Cheirei com medo, acabei em pânico: era o melhor pó que já tinha
  879. experimentado. Ela se mordeu toda e chegou perto de mim:
  880. –    Quer deixar leitinho que gruda na Sandinha, quer, minha caixinha de
  881. leite que anda?
  882. –    Preciso dar uns tapas no skunk, eu disse, tremendo.
  883. Estava estriquinado, nem sombra de rigidez peniana. Temi por uma parada
  884. cardíaca ou derrame cerebral. Ela me olhou com irritação:
  885. –    O Skunk é pra depois. Me dá um beijinho...
  886. Babei ela toda. Sandy gostou:
  887. –    Meu porquinho, minha varinha verde, treme, treme, tira ele pra fora,
  888. treme!
  889. Meu pau era uma verruguinha. Sandy puxou ele, chupou que nem uma louca, tão
  890. forte que depois de dez minutos ele ficou quase duro.
  891.  
  892.     A fase do medo passara. Estava furioso, queria mais pó. Ela fez duas
  893. linhas enormes, eu cheirei as duas e atirei o espelhinho no espelho do
  894. banheiro do Cinemark. Agarrei Sandy, ai ai ai, eu urrando, uooorrr, atirei
  895. ela já pelada na pia cheia de cacos, ela se cortou ui ui e eu botei direto
  896. no cu.
  897.  
  898.     Usei o sabonete líquido do banheiro como lubrificante.
  899.  
  900.     Foi bem como eu imaginava, ai, tá doeeeiiindo, crã crã, "eu não acredito
  901. que tô fodendo a Sandy", crã crã, me fode forte, aaaahhh!, "crã crã meu Deus
  902. não é verdade", crã snifff!, crã crã crã, ui, aaaahhh!, "uma
  903. menina-Sandy-bicuda", crã crã crã, pro família Lima ela não deu mas o
  904. peregrino tooora!
  905.  
  906.     Crã crã crã crã crã
  907.     AAAAAAAAHHHHH!!!
  908.     Gozei dentro da boquinha da Sandy.
  909.  
  910.     –    Teu leite tem gostinho de côco, ela sorriu.
  911. Eu olhei para ela, ofegante, banhado em suor, melhor trepada da minha vida.
  912. PAFT! Espanei a mão na cara da Sandy. Ela apalpou o sangue no canto da boca:
  913. –    Por que me bateu?
  914. Eu não sabia. Foi tão bom que deu raiva, sei lá.
  915. –   Bate de novo.
  916. Dei três tapas nela e ela, transfigurada, pedia mais.
  917. –  Vai, me bate de novo, tu é um chinelo que não vale nada, só serve pra
  918. foder! Bate, filho da puta!
  919. E era a cara da Sandy, a Sandy menina mimada, a Sandy que demorou seis meses
  920. para beijar o família Lima, Meu bom Deus, eu estava dando na cara da Sandy!
  921.  
  922.     Cansei. Ela tinha o rosto todo amassado, os olhos não exprimiam nada
  923. além de satisfação.
  924. Pediu meu telefone.
  925. –   Tenho namorada, eu disse, isso que aconteceu não pode se repetir.
  926. –   Larga ela, vem morar em Miami comigo.
  927. –   Sinto muito, babe, respondi, meu coração pertence a outra.
  928. Ela chorou, mas garantiu que entendia:
  929. –   A rotina de shows é realmente muito estressante para alguém que precisa
  930. de sossego, como tu. Mas, almoça comigo?
  931. Fomos no McDonald's do Bourbon. Ela pediu um Mclanche feliz e eu comi
  932. sessenta e quatro Mcnuggets, alucinado de skunk.
  933.  
  934.     Nos despedimos com um tchauzinho de longe, sorrisos de orelha a orelha.
  935. Gargalhadas.
  936.  
  937. 20/03/00
  938. 20:45
  939.  
  940.  (Escrito numa aula de antropologia cultural em que se analisava a relação
  941. entre portugueses e índios nos séculos XVII e XVIII, sob efeito de um
  942. expresso do bar da FUMECOS.)
  943.  
  944. *  *  *
  945.  
  946.         "Existem muitas maconheiras gostosas na FAMECOS.'
  947.  
  948.         "Existem muitas maconheiras em todo lugar.'
  949.  
  950.         "Mas na FAMECOS elas são gostosas.'
  951.  
  952.         "E burras.'
  953.  
  954.         "Na Ufrgs existem maconheiras inteligentes.'
  955.  
  956.         "E feias.'
  957.  
  958.         "O Pilla falou que queria fazer uma cena literária na FAMECOS.'
  959.  
  960.         "Não existe cena literária num lugar onde maconheiras gostosas
  961. circulam com suas bolsas de crochê de Machu Pichu.'
  962.  
  963.         "Ou não.'
  964.  
  965.         "O importante é que elas sejam do mal.'
  966.  
  967.         "Eu não sei se elas são do mal.'
  968.  
  969.         "Porque ainda não comi nenhuma.'
  970.  
  971.         "(Vou olhar a cara daquela de frente pra verificar se dá pra
  972. arrecadar.'
  973.  
  974.         "Até dá.'
  975.  
  976.         "Mas o que vou falar pra ela?'
  977.  
  978.         "Será que peço um COLOMY?'
  979.  
  980.         "Lírio?'
  981.  
  982.         "Convido ela pra me botar um baseado?'
  983.  
  984.         "Na verdade eu não tenho a pilha de foder agora.'
  985.  
  986.         "Nem de fumar.)'
  987.  
  988.         " Mas eu falava de cena literária.'
  989.  
  990.         "Para escribir hay que leer.'
  991.  
  992.         "As pessoas não lêem na FAMECOS.'
  993.  
  994.         "Poucas lêem.'
  995.  
  996.         "Um cara veio hoje me perguntar se eu não era o peregrino do sei lá
  997. o que tri louco eu assino e pá vi as fotos do site onde uns cara dizem que
  998. tu escreve textos infantis tu só faz esta cadeira com a gente?'
  999.  
  1000.  
  1001.         "Legal o cara.'
  1002.  
  1003.         "Talvez se tivesse mais gente como ele na FAMECOS a gente pudesse
  1004. criar uma cena.'
  1005.  
  1006.         "Mas eu acho que nossa missão é impossível.'
  1007.  
  1008.         "Pilla.'
  1009.  
  1010.         "Só nos resta ver as maconheiras gostosas circulando com suas bolsas
  1011. de Machu Pichu e futricar no CICOM.'
  1012.  
  1013.         "Para sempre."
  1014.  
  1015.         *  *  *
  1016.  
  1017.     Uma lista para lembrar os velhos tempos
  1018. (Coisas legais que a gente pensa mas não tem saco de levar adiante)
  1019.  
  1020.    * Como são idiotas as pessoas que vem falar contigo do nada, na rua,
  1021. comentando o livro que estás lendo, o rango que estás comendo ou o pano que
  1022. estás vestindo!
  1023.  
  1024.     * Como uma pessoa realmente interessante nunca faria isso!
  1025.  
  1026.     * Como fantasmas são coisa de mulheres loucas, gente solitária e/ou
  1027. velha!
  1028.  
  1029.      * Como um boquete pode ser mais marcante que uma trepada completa!
  1030.  
  1031.      * Como dá vontade de escrever logo depois de ler uma ou duas páginas de
  1032. boa literatura!
  1033.  
  1034.      * Como dá vontade de escrever mesmo se a literatura for ruim!
  1035.  
  1036.      * Como listas são fáceis de escrever e agradáveis de ler!
  1037.  
  1038.      * Como faz tempo que não se publicava lista no Cardosonline!
  1039.  
  1040.      * Como se publicava listas nos primeiros números!
  1041.  
  1042.      * Como todo mundo escrevia mal naquele tempo!
  1043.  
  1044.      * Como estamos convencidos de que mudamos muita coisa desde lá!
  1045.  
  1046.      * Como eu ficaria feliz se as pessoas que me lêem escrevessem de vez em
  1047. quando, nem que fosse só para dizer o quanto eu sou chato!
  1048.  
  1049.      * Como gosto de escrever para este zine!
  1050.  
  1051.      * Como as idéias acabam rápido!
  1052.  
  1053.      * Como nada disso interessa!
  1054.  
  1055.      * Como o último item de uma lista sempre tem que ter uma gracinha!
  1056.  
  1057.  
  1058.                                                   *  *  *
  1059.  
  1060.      Ao terminar o show, me vi correndo ao encontro dos amigos, perguntando,
  1061. desesperado, não foi o pior show da tua vida? Eu procurava compreensão,
  1062. procurava sins. Todos disseram não. Foi o melhor show da minha vida, eu
  1063. curti, etc. Será respeito aos cinqüenta reais? Prefiro acreditar que sim, do
  1064. contrário, estaria convencido de que Morrissey dispõe de poderes
  1065. extrasensoriais para convencer a multidão.
  1066.  
  1067.     O tempo todo me senti como se estivesse comendo algo fora da validade há
  1068. anos. Que susto quando aquele homem entrou no palco! Menos mal que a
  1069. presença do Morrissey não deixa nada a desejar, mas o nego tem que engolir
  1070. frases pra lá de arrogantes. Depois da melhor música do show, uma rapaziada
  1071. levantou um cartaz com os dizeres BOY RACE, ao que Morrissey olhou com
  1072. aquela cara de bicha-inglesa-junkie-vegetariana pra responder: DON'T MAKE
  1073. ANY REQUESTS, THEY'LL BE COMPLETELY IGNORED. Cara, eu olhei pra ele com
  1074. muita vontade de bater. Tá certo que faz parte da apresentação aquela pose,
  1075. mas o cara deveria ter sensibilidade de perceber que as pessoas estavam lá
  1076. para ver o vocalista dos Smiths – coisa que ele já não tem nem a sombra – e
  1077. fazer o que a galera queria! Porra, tocar ASK! Por que ele não tocou ASK?
  1078. Enfim, o descaso de Morrissey com o público foi algo. Merecia que todos
  1079. gritassem THE SMITHS, THE SMITHS!
  1080.  
  1081.  Depois da primeira música, ele ironizou: You know, I would like to live in
  1082. this city, you know why? I don't know why. Eu considerei isso uma afronta
  1083. pessoal, uma ofensa à minha inteligência, bem como aquelas camisetas de
  1084. "West Ham Boy Club" e "English Martyrs", disputadas a tapas pelos fãs mais
  1085. exaltados. Cara, o que era o popeye-Morrissey estendendo a mão para a
  1086. platéia para limpar no cu logo depois? E aquela ginástica rítmica com o cabo
  1087. do microfone? Detestei, foi uma experiência deprimente.
  1088.  Não recebi ingressos gratuitos como provavelmente todo o pessoal da
  1089. imprensa recebeu para escrever estas críticas para lá de condescendentes...
  1090. Pensarei muito bem antes de comparecer a novos (?) shows de dinossauros do
  1091. rock promovidos pela Opinião Produtora.
  1092. A propósito, será que Porto Alegre só merece músicos internacionais já
  1093. experimentando a decadência?
  1094.  
  1095. (NOTA DO EDITOR: O problema é que tu não é um grande admirador dos Smiths muito
  1096. menos do Morrissey. Não só tu como mais de metade do pessoal que tava no Opinião,
  1097. o que é uma pena. Aí teve neguinho vaiando, neguinho que não sabia cantar
  1098. nenhuma música e neguinho puto da cara em pagar 50 pilas. O show foi tecnicamente
  1099. perfeito, a voz do cara continua impecável mas obviamente não tem como ser o mesmo
  1100. Morrissey de 15 anos atrás. Claro que ele veio tarde, mas longe da decadência. E pros
  1101. fãs, eu digo os FÃS mesmo, foi um puta show, ah, se foi.)
  1102.  
  1103.                                               *  *  *
  1104.  
  1105.                      POESIA DO VEGETARIANO BÊBADO
  1106.                                 (Para Eduardo Nasi)
  1107.  
  1108. Se andássemos com braços em riste
  1109. Menas asa teríamos
  1110. Se tomássemos ceva com uísque
  1111. Carne, menas comeríamos
  1112.  
  1113. Nada existe
  1114. Coma alpiste
  1115. Nada existe
  1116. Beba visque
  1117.  
  1118. Almoço no Ocidente
  1119. Fico tri contente
  1120. De fazer o que Morrissey manda
  1121. Longa vida ao urso panda
  1122.  
  1123. MEAT IS MURDER
  1124. Diz o banner
  1125. De Tina Turner
  1126. (A negra ex-cabeluda que tem
  1127. proteção do Greenpeace)
  1128. Quando a menstruação não vem
  1129. Não lembre do que não fiz
  1130.  
  1131. Sempre se diz
  1132. Bem que se quis
  1133. Ser feliz
  1134. Sem comer xis
  1135.  
  1136. ---Hermano Freitas
  1137.  
  1138.  
  1139.                                        OCITRENDY
  1140.                                         ---Navarro---
  1141.  
  1142. Dia 06 de abril , às 22 horas no Ocidente – João Telles esquina Osvaldo
  1143. Aranha – os DJ's Navarro, Dante e Mr. F estarão recebendo um convidado
  1144. muito especial que fará a abertura do projeto nas pick ups – Thedy
  1145. Côrrea.  Todos estarão fazendo a sua parte para realizar...
  1146.  
  1147. "O SORRISO DE JENNIFER"
  1148.  
  1149. José Cláudio Mello, mais conhecido na cidade por Claudiona, profissional
  1150. da arte das tesouras e figura carimbada da noite porto-alegrense,
  1151. lançadora de muitas modas e gírias do mundo " dance" da cidade, iniciou
  1152. sua carreira no Scalp, depois passou para o Vídeo Hair e agora trabalha
  1153. no Cabezas Cortadas. Nesta noite iremos reunir todos os amigos, clientes
  1154. e pessoas que tem com a Claudiona um pouco de referência para
  1155. confraternizar para que o sorriso volte ao rosto de Jennifer.
  1156.  
  1157. Convites à venda no Cabezas Cortadas : R$ 10,00.
  1158. Mostardeiro, esquina Miguel Tostes
  1159.  
  1160. Apoio: OCIDENTE, LOOKING GLASS, CABEZAS CORTADAS
  1161.  
  1162. ---Navarro
  1163.  
  1164.                      LES JOHNSON & FLU NO ZELIG
  1165.                                       ---Bruno Suman---
  1166.  
  1167. Nesta terça feira dia 11 de abril na comemoração dos 14 anos ZELIG tem show de:
  1168. LES JOHNSON E FLU - um show pela paz mundial  
  1169.  
  1170. Les Johnson - a única banda de lounge music da capital. A banda é formada por 4nazzo
  1171. (teclados), Bruno Suman (bateria), Régis Sam (baixo) e Jimi Joe (guitarra).No
  1172. repertorio classicos Jazz, Grooves e Bossa Nova  
  1173.  
  1174. Flu - O Flu continua divulgando seu disco ...e a alegria continua. O Flu no violão é
  1175. acompanhado por sua banda Os Dubem formda por 4nazzo (guitarra e teclados), Vanessa
  1176. (baixo), Sassa (percussão) e Chave Marin (percussão)  
  1177.  
  1178. O que? Show de Les Johnson e Flu pela paz mundial
  1179. Onde? No Zelig (Sarmento Leite, 1086)
  1180. Quando? Terça Feira dia 11 de abril de 2000 às 22:00
  1181. Quanto? R$ 3  
  1182.  
  1183. (NOTA DO EDITOR: Les Johnson é uma banda muito afudê, vale a pena conferir o trabalho
  1184. desses caras. Lounge Music muito bem tocada e divertida. O Zelig não é um lugar muito
  1185. legal pra shows, mas eu faço esse esforço pra ver os caras ao vivo <coisa que ainda
  1186. não fiz>. Flu dispensa comentários, tava há um bom tempo sem ir nos shows dele. O CD
  1187. é muito bom, comprei no natal e passei quase todo janeiro com ele no play. Se você
  1188. tem 3 pilas pra gastar num show, gaste nesse.)
  1189.  
  1190. ---Bruno Suman
  1191.  
  1192.  
  1193. CardosOnline
  1194. http://cardosonline.cjb.net
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  1196.  
  1197. Staff:
  1198.  
  1199. Drum 'n' Bass: André Czarnobai (editor@cardosonline.cjb.net)
  1200. Manguebit: Daniel Galera (galera@cardosonline.cjb.net)
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  1202. Rock 70: Marcelo Träsel (trasel@cardosonline.cjb.net)
  1203. Trip Hop: Daniel Pellizzari (mojo@cardosonline.cjb.net)
  1204. Bossa Nova: Hermano Freitas (hermano@cardosonline.cjb.net)
  1205. Funk: Clarah Averbuck (clarah@cardosonline.cjb.net)
  1206. Metal: Guilherme Caon (caon@cardosonline.cjb.net)
  1207.  
  1208. E a partir dessa edição, atendendo a inúmeros pedidos - os E-MAILS dos colaboradores!!
  1209.  
  1210. Colaboradores:
  1211.  
  1212. Um rapaz cheio de teorias: Cristiano Baldi <cbaldi@rede-rs.com.br>
  1213. Epopéia: Kbrito <kbtz@psynet.net>
  1214. Direto do Ocitrendy: Antônio Navarro <navarro@zaz.com.br>
  1215. O filho da Kátia: Bruno Suman<bruno_suman@mailcity.com>
  1216. Lobo da Estepe: Alexandre João Dias<vinimc@corp.terra.com.br>        
  1217.  
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